Exposição "Utopia" mostra "olhar melancólico" sobre a arquitectura modernista, no Museu Berardo
Lisboa, 29 Mai (Lusa) - O olhar de dez fotógrafos sobre a decadência da arquitectura modernista está expresso num conjunto "melancólico e triste" de trabalhos reunido na exposição "Utopia", que inaugura hoje à noite no Museu Colecção Berardo.
Apresentada em co-produção do Museu Berardo com o PhotoEspaña 2008 - XI Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais - a exposição foi desta forma retratada pelo comissário Paul Wombell durante uma visita guiada à exposição que contou com a presença do director artístico do evento, Sérgio Mah, e a directora do festival, Claude Bussac.
A directora do festival congratulou-se pelo facto da exposição no Museu Berardo "ser a primeira a inaugurar no âmbito do PhotoEspaña 2008", que decorre entre 04 de Junho e 27 de Julho em Madrid, com trabalhos de 230 artistas de 35 países.
Em "Utopia" encontram-se representados os fotógrafos Mathieu Pernot, Frédéric Chaubin, John Riddy, Stuart Whipps, Alex Hartley, Gayle Chong Kwan, Wiebke Loeper, Arni Haraldsson, Tacita Dean, Amir Zaki, cujos trabalhos incidem sobre a arquitectura dos anos 50 e 60.
Nessas duas décadas, vários arquitectos de todo o mundo, entre eles o célebre Le Corbusier, projectaram edifícios construídos para um mundo "utópico" e visionário, acreditando que iriam contribuir para criar uma vida melhor, recorrendo, nomeadamente às tecnologias do aço e do cimento.
Esta exposição "é melancólica e triste. Aqui são mostrados edifícios construídos nos anos 50 e 60 que estão agora muito degradados ou foram demolidos, representando um sentimento de perda de uma arquitectura criada para fazer um mundo melhor", observou Paul Wombell.
A mostra, que recorre à fotografia e ao vídeo, "é como uma mosca no nariz de Le Corbusier", ironizou o comissário para dar uma imagem de como certamente incomodaria o arquitecto, considerado um dos mais famosos do século XX.
"São também uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro: imagens que estão a dizer algo mais profundo", comentou.
A obra de Le Corbusier aparece, nomeadamente nas fotografias de Arni Haraldsson, artista canadiano, que tem vindo a estudar o período modernista e que está representado nesta exposição com imagens tiradas em Firminy, em França, palco da maior colecção de edifícios concebidos pelo arquitecto fora da Índia.
Os edifícios estão actualmente semi-ocupados, degradados, e isolados, dando a sensação de terem caído no esquecimento depois de uma época áurea.
Outra série, criada pelo fotógrafo francês Mathieu Perrot, mostra a implosão de uma série de edifícios que deram origem a bairros sociais nas cidades francesas também no período modernista.
Construídos nos anos 50 e 60 para receber milhares de pessoas que ficaram a viver em bairros de lata a seguir à II Guerra Mundial, passaram de um símbolo de esperança de uma vida melhor naquela época para se transformarem actualmente em guetos geradores de graves problemas sociais.
"Utopia", que entra no período modernista para colocar questões sobre o urbanismo com grande actualidade, estará patente ao público até 27 de Julho, no Museu Colecção Berardo, em Belém.