Facetas controversas da padeira de Aljubarrota em palco no CCB

A padeira de Aljubarrota, figura mítica da histórica batalha contra os castelhanos, vai estar sábado no centro do espectáculo de dança/teatro "Das Padeiras", onde o mito é questionado através das palavras e do corpo.

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Brites de Almeida era o seu nome, mas ficou conhecida como a Padeira de Aljubarrota e faz parte do imaginário português porque - segundo conta a lenda - foi decisiva para a vitória dos portugueses contra os castelhanos na batalha ocorrida em 1385.

Em "Das Padeiras", que será apresentado no Centro Cultural de Belém (CCB), as bailarinas Ana Gouveia e Marina Nabais, intérpretes e criadoras da peça, apresentam as diferentes facetas da personagem feminina, e várias versões do que se terá passado.

Questionam o mito e procuram a verdade "através de jogos com as palavras e o que daí passa para o corpo", explicou hoje uma das artistas à Agência Lusa.

Depois de uma investigação sobre a personagem, descobriram "muitas versões diferentes de quem foi Brites de Almeida e porque lhe foi dada tanta importância, a ponto de todos os portugueses a conhecerem mas não saberem realmente muito sobre ela", comentou Ana Gouveia.

Na pesquisa descobriram, nomeadamente, que durante o Estado Novo lhe foi dado muito relevo porque era uma figura patriótica, e, por outro lado, relatos que a descrevem como uma mulher monstruosa, com seis dedos. Do seu percurso de vida "nada é certo, mas uma ideia fica: andou sempre fugida".

"Parece que cedo ficou órfã e que aprendeu a manejar bem o pau e a espada. Há histórias que dizem que gostava de matar porque matou um amante, matou os espanhóis, foi raptada", referiu, sobre a Brites de Almdeida, que teria entre 20 e 30 anos na altura da batalha.

Ana Gouveia e Marina Nabais quiseram descobrir as diversas facetas da padeira e fazer uma reflexão sobre como se tornou um mito, "enquanto outras mulheres que até tiveram algum protagonismo ficaram mais esquecidas" na História de Portugal.

"É bom descobrir as várias facetas destas personagens e o que as pessoas pensam delas porque, ao conhecerem as figuras da sua história, os portugueses também se podem conhecer a si próprios", observou Ana Gouveia.

Estreado em Almada no ano passado, "Das Padeiras" foi repensado pelas suas criadoras, sofrendo algumas alterações, e apresenta-se agora pela primeira vez em Lisboa, sábado, na Sala de Ensaio do CCB, pelas 19:00, num cenário em que entram também a farinha e o jogo do pau, que as artistas decidiram experimentar para imitar a famosa padeira.

Depois do CCB, segundo Ana Gouveia, há a possibilidade de levar esta peça de dança e teatro a outros pontos do país através da Cultideias, uma organização que possui um projecto cultural em parceria com uma rede de municípios.

Ambas formadas em dança pela Escola Superior de Dança de Lisboa, as duas artistas trabalham em parceria na formação artística de crianças e jovens na Menina dos Meus Olhos, associação cultural criada em 2003 e da qual Marina Nabais é directora artística.

O espectáculo, produzido pela Associação Menina dos Meus Olhos, tem música de Tiago Cerqueira, vídeo de António Cabrita, figurinos e caracterização de Inãki Zoilo e desenhos de luz de José Álvaro Correia.


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