Famalicão quer criar escola de tocadores de bombos e gaitas-de-foles
O grupo de zés p`reiras "Os Divertidos", de Famalicão, que domingo assinala 60 anos de actividade e é considerado uma referência no panorama etno-musicólogo minhoto, pretende lançar uma escola de gaita-de-foles e bombos.
Segundo disse hoje à Lusa Manuel Carvalho Lima, dinamizador de "Os Divertidos", trata-se de "tentar tirar aqueles instrumentos do declínio em que foram mergulhando" a partir de inícios do século XX.
O grupo "Os Divertidos" foi fundado em Delães, Famalicão, pelo gaiteiro João Pereira Lima, num trabalho agora continuado pelo seu filho Manuel e certamente a prosseguir pelos netos, que já se interessem por estas formas de expressão musical.
"Os meus dois filhos, um de 21 anos e outro de 13, já há muito que tocam gaitas-de-foles", disse João Pereira Lima.
Também em Delães, outro descendente de João Pereira Lima, Alberto Carvalho, fundou um segundo grupo de zés-p`reiras, mas o actual dinamizador de "Os Divertidos" defende que é preciso "semear na comunidade" este interesse, que pouco tem saído do círculo familiar.
"Para isso, é preciso criar a escola e, para a lançar, é preciso legalizar +Os Divertidos+. É tudo que isso que queremos fazer", disse.
O grupo integra 11 pessoas, entre tocadores de gaitas-de- foles, bombos, caixas e trompetes, sendo descrito pelo seu responsável como "uma espécie de concorrente dos fogueteiros", já que a sua função principal é a de "criar clima" para festas e romarias.
Para o antropólogo Napoleão Ribeiro, o grupo de zés p`reiras "Os Divertidos" é uma referência no panorama etno-musicólogo da região, tanto pelo repertório que interpreta como pela indumentária, que não raras vezes aparece representada na iconografia popular".
Dirigente da Associação Gaita-de-Foles e da Associação Cultural Tirsense, Napoleão Ribeiro é um conhecedor privilegiado de "Os Divertidos", tendo realizado diversas recolhas fonográficas e fotográficas do seu trabalho, no âmbito de uma investigação etno- museológica regional.
Segundo este especialista, grupos como "Os Divertidos" são "muito importantes" para preservar uma forma de expressão musical que entrou em desuso nos primórdios do século XX, depois de ter o seu apogeu no século XIX.
O antropólogo advertiu, contudo, que nunca será possível que a gaitas-de-foles e os bombos atinjam uma expressão similar à que tem na Galiza onde uma iniciativa de defesa ambiental reuniu 10 mil grupos da especialidade.
"A gaita-de-foles funciona para os galegos como a guitarra para Portugal. É o instrumento local por excelência", explicou.
Os poucos gaiteiros portugueses concentram-se Trás-os-Montes, sobretudo no noroeste e no planalto mirandês, mas existem também grupos no litoral oeste, Estremadura, península de Setúbal e também no Minho.
Desde a fundação da nacionalidade, nomeadamente em pleno período medieval, existem numerosos testemunhos e documentos aludindo aos gaiteiros e às gaitas de fole como um instrumento muito popular e que era tocado em todo o espaço nacional.