Feridas da Guerra Civil não foram fechadas, direita insiste em esconder a verdade - Ian Gibson

***António Sampaio, da Agência Lusa***

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Madrid, 21 Out (Lusa) - As feridas da Guerra Civil e do franquismo em Espanha nunca foram verdadeiramente fechadas e a direita mais conservadora, incluindo a Igreja Católica, insistem em esconder a verdade do que aconteceu, disse hoje o hispanista Ian Gibson.

Em entrevista à Lusa, Gibson avaliou assim as reacções dos sectores mais conservadores, incluindo da Justiça, à decisão do juiz Baltasar Garzón investigar os crimes da Guerra Civil e do franquismo, nomeadamente os desaparecimentos de mais de 100 mil espanhóis.

"Dizem que se está a reabrir as feridas. Mas as feridas nunca foram fechadas. E não se podem fechar quando os teus seres queridos são lançados para valas comuns e 30 anos depois continuam assim, sem justiça, sem que os restos mortais sejam honrados", frisou Gibson.

Considerado um dos maiores especialistas em Federico Garcia Lorca e autor de numerosos livros sobre o poeta, Gibson faz parte do leque de hispanistas de origem britânica que se especializou na história moderna do país, nomeadamente no período da Guerra Civil e do franquismo.

De origem irlandesa e naturalizado espanhol, insiste nas criticas às alas mais conservadoras do país, incluindo a Igreja Católica, que homenagearam e até beatificaram heróis do lado franquista mas que continuam calados relativamente aos "que perderam a guerra".

"Este silêncio dos que consentem que isto permanece não pode prevalecer. A ala mais moderada da direita e da própria igreja não pode ficar calada. Não pode permitir que isto continue a acontecer", afirmou.

Até porque, insiste Gibson, por maiores obstáculos que as alas conservadoras levantem, "a verdade é imparável e não se calará", com dezenas de historiadores em todo o país a trabalhar, hoje, para clarificar o que aconteceu na Guerra Civil e no franquismo.

Gibson refere que qualquer aspecto penal é hoje "mero procedimento" e que ninguém vai ser preso pelo que fez, ou por quase todos já estarem mortos ou porque, os eventuais sobreviventes "terão hoje 80 e tal ou 90 anos".

"O mais importante é encontrar os mortos e honrá-los. Não permitir que continuem espalhados pelo país. Reconhece-los e consolidar assim a verdadeira reconciliação", sublinhou Gibson.

"Vê-se que a direita continua a trabalhar para que a verdade não se saiba. Espero que desta vez não vençam", disse Gibson.

A decisão sobre se esse processo avançará depende agora, em grande parte, de um recurso apresentado pelo Ministério Público espanhol contra a decisão de Baltasar Garzón, por considerar que os crimes da Guerra Civil e do franquismo são delitos comuns que, como tal, já prescreveram.

Uma postura que contrasta com a de Garzón, que classifica o desaparecimento ou morte de mais de 100 mil pessoas como "crimes de desaparecimento forçado", pelo que se inserem na classificação de crimes contra a humanidade.

No seu auto sobre o tema, Garzón considera responsáveis dos desaparecidos um total de 35 cargos superiores do regime franquista, entre eles o próprio ditador Francisco Franco, pedindo em todos os casos certidões de óbito que os eximam de responsabilidade penal.

Garzon reclama ainda ao Ministério do Interior que identifique os máximos dirigentes da Falange, entre 17 de Julho de 1936 e 03 de Dezembro de 1951. Depois de identificados o juiz decidirá se, no caso dos vivos, haverá acusações formais.

No passado dia 22 de Setembro, Garzón recebeu um primeiro censo com os nomes de mais de 130 mil pessoas vítimas da repressão franquista, no que constitui o relatório mais detalhado feito até hoje sobre esta questão.

ASP.

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