Fernando Lima foi pioneiro na dança independente em Portugal

O coreógrafo e bailarino Fernando Lima, hoje falecido aos 77 anos, foi o primeiro a lançar e dirigir uma companhia independente em Portugal, e actualmente dava aulas de dança clássica.

Agência LUSA /

Como afirmou em Abril passado à agência Lusa, dava aulas "todos os dias para se manter em forma e para ensinar o que aprendi ao longo dos anos".

Fernando Lima, o primeiro português a dançar nos palcos europeus, começou nos bailes da Ericeira, onde actuava nas férias grandes.

Deixou para trás um curso de engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa (que frequentou durante três anos) para se dedicar à arte que o conquistou e com a qual se exprimia.

Nascido em Lisboa a 14 de Maio de 1928, Fausto Fernando Batista Lima despertou tarde para a dança mas dedicou-lhe mais de 50 anos da sua vida.

Em entrevista à Lusa, o coreógrafo, bailarino e professor Fernando Lima contou que se iniciou na dança por brincadeira nos salões de baile da Ericeira e mais tarde no estúdio da professora Margarida de Abreu.

"Costumava ir com os meus pais passar as férias grandes à Ericeira onde todos os anos se realizava um baile que era mais uma espécie de revista", contou.

"Foi num destes bailes que me alertaram para o facto de eu ter jeito para dançar e que devia pensar em dedicar-me ao ballet", explicou Fernando Lima, frisando que "este era um cenário que colocava completamente de parte".

No entanto, acabou por deslocar-se ao estúdio da professora Margarida de Abreu em 1947 e começou a estudar dança no Círculo de Iniciação Coreográfica.

"Quando comecei, a dança era para mim uma brincadeira, uma maneira de passar o tempo pois eu estava mais direccionado para fazer uma carreira universitária e ser engenheiro", explicou.

Como tinha uma formação muscular bastante desenvolvida devido aos muitos anos de prática na patinagem artística, Fernando Lima adaptou-se rapidamente ao ballet.

Foi com Margarida Abreu que o bailarino Fernando Lima se estreou nos palcos do Teatro Nacional de São Carlos com a peça "Quadros de uma Exposição".

No final dos anos 40 já dançava papéis de destaque em obras da sua mestra como "Nova Chopiniana" e "Pássaro de Fogo".

"A Margarida de Abreu achou que eu tinha qualidades acima da média e convenceu-me a ir para Paris fazer um estágio", disse.

E foi assim que, juntamente com Anna Maria Máscolo e a que mais tarde viria a ser sua mulher Águeda Sena, seguiu para Paris onde fez o primeiro dos vários estágios de Verão que realizou na capital francesa como bolseiro do Instituto da Alta Cultura.

Segundo Fernando Lima, no estrangeiro aperfeiçoou a técnica, profissionalizou-se e começou a dançar papéis clássicos de grande destaque.

De regresso a Portugal, Fernando Lima tornou-se então o primeiro bailarino português a dançar papéis do reportório clássico tradicional dentro de um contexto profissionalizante.

"Dançar em Portugal era muito difícil, existia muito preconceito em relação aos bailarinos homens", contou o coreógrafo adiantando que "não era só a dança, pois o teatro de uma maneira geral era uma actividade um pouco à margem".

Mas nesta altura, já Fernando Lima se tinha apaixonado pela dança, uma arte que considera fantástica por estar ligada à música, arquitectura e à pintura.

Em 1956, já casado com a bailarina Águeda Sena, Fernando Lima funda o Ballet-Concerto, a primeira companhia independente em Portugal.

"Eu era maluco, foi um acto heróico e hoje não sei como conseguimos sobreviver", recordou Fernando Lima acrescentando que "a companhia subsistia com um apoio de cerca de 30 contos do Instituto da Alta Cultura e das receitas dos espectáculos".

"Quando fundei a companhia eu já era aquele, o tal, o esquisito, tinha alguma projecção em Portugal e o meu trabalho era apreciado", referiu.

Com o Ballet-Concerto criou coreografias como "Prelúdio à Sesta de um Fauno", "Piquenique", "Delphiada" e "Galaaz" mas, apesar do sucesso obtido com os espectáculos a companhia acabou e Fernando Lima ficou cheio de dívidas.

Para combater o insucesso financeiro, o coreógrafo e Águeda Sena foram trabalhar com Vasco Morgado no teatro comercial para ganhar dinheiro e sobreviver.

É nesta altura que a RTP surge e o coreógrafo inicia nova actividade dançando com a mulher em inúmeros programas.

"Nós participámos num programa experimental da RTP, realizado por Artur Ramos, na Feira Popular, que na altura era onde hoje está a Fundação Calouste Gulbenkian, com um `pas-de-deux` de `Sílfide`", disse.

Fernando Lima e Águeda Sena participaram também no programa inaugural dos estúdios do Lumiar em o "Auto do Vaqueiro" e em revistas no Teatro Monumental.

O Ballet-Concerto voltaria a surgir em 1958, com o nome de Ballets de Lisboa, o primeiro agrupamento a ser subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e que se estreou no Teatro Monumental com orquestra dirigida pelo maestro Silva Pereira.

No entanto, mais uma vez os problemas financeiros surgiram, obrigando o coreógrafo a criar em 1959 os Bailados Portugueses de Fernando Lima, um pequeno grupo virado para a vertente folclórica e com o qual apresentou espectáculos no Casino do Estoril e na Europa.

"Eu andava sempre com as `marrecas` atrás. Criava companhias que davam prejuízo e metia-me em outras coisas para pagar as dívidas", contou.

Apesar da intensa actividade entre espectáculos e criação de companhias o coreógrafo sentia-se insatisfeito e queria mais.

"Isto tudo não me satisfazia e então falei com a Margarida de Abreu que continuava com o seu Círculo de Iniciação Coreográfica e projectamos criar uma companhia juntos", disse o coreógrafo.

A criação da companhia chegou a ser negociada com a Câmara de Lisboa mas nunca chegou a acontecer porque é nesta altura que os dois são convidados para dirigir o grupo Bailados Verde Gaio, que estava em crise.

O Verde Gaio durou até ao final dos anos 70, mas Fernando Lima não parou e começou a trabalhar com maior regularidade em programas de televisão e o teatro de revista coreografando para peças musicais.

Em 1974, e ainda ligado ao Verde Gaio onde as suas funções se limitavam ao ensino, foi um dos membros fundadores do Teatro Adoque, para o qual coreografou danças para várias revistas.

Para os derradeiros espectáculos do Verde Gaio coreografou a peça "Canções Heróicas" para músicas homónimas de Fernando Lopes- Graça, em Outubro de 1975, antes do grupo se extinguir.

Fernando Lima continuou a coreografar companhias como a Companhia Nacional de Bailado, para programas de televisão e a ensinar dança clássica no Centro Cultural de Benfica, onde ainda dava aulas aos jovens.

Admirador dos trabalhos de Olga Roriz e da coreógrafa alemã Pina Baush, Fernando Lima referiu que acompanhava o que se fazia em Portugal, assistindo a espectáculos de dança clássica e contemporânea.

Entre os seus trabalhos mais recentes, refira-se a coreografia "Fado" para a Companhia Nacional de Bailado muito aplaudida pela crítica e que se tornou num dos seus trabalhos de referência.

Questionado sobre qual o seu trabalho preferido, Fernando Lima elegeu "Prelúdio à Sesta de um Fauno", de Claude Debussy, peça que dançou sozinho e que foi um êxito.

Fernando Lima recordou ainda com carinho a coreografia "Jogos Sinfónicos" que CeDeCe apresentou em Abril, em Oeiras, Óbidos e Alcobaça, 40 anos após a sua estreia.


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