Festa do Cavaquinho vai "dar som" a temas de Bach e Pink Floyd

A Festa do Cavaquinho reúne sexta-feira e sábado, em Viana do Castelo, uma centena de tocadores, que prometem surpreender a plateia ao "extrair" das quatro cordas do tradicional instrumento temas de Bach ou dos Pink Floyd.

Agência LUSA /

"Quando tocamos, por exemplo, `Another brick in the wall`, dos Pink Floyd, as pessoas não conseguem evitar abrir a boca de espanto, como que interrogando-se como é possível tocar aquele tema no cavaquinho", referiu à Lusa o "director artístico" da festa.

Júlio Viana, professor da Orquestra Popular "Sopro de Cordas" de Outeiro, explicou que o cavaquinho é "muito versátil", que tanto dá para tocar o "Malhão" como excertos de uma sinfonia de Bach ou Beethoven, e sublinhou a necessidade de recolocar aquele instrumento "no lugar que merece, por direito próprio".

"Apesar de ser um dos mais genuínos e populares instrumentos do Minho, o cavaquinho tem sido subalternizado e até esquecido, mas nós cá estamos, não só para não o deixar morrer, como também para lhe dar um novo impulso", acrescentou.

Sexta-feira e sábado, a Praça da República, em Viana do Castelo, vai transformar-se, pelo segundo ano consecutivo, na "catedral" do cavaquinho, com a actuação de cinco grupos do concelho apostados em demonstrar que os instrumentos não se medem aos palmos.

Nos grupos pontificam tocadores com idades entre os sete e os 73 anos, sendo o mais velho José Santos, que diz "arranhar as cordas" há apenas quatro ou cinco anos mas garante que já tem tanto amor ao seu instrumento como à "namorada" que arranjou no Lar de Idosos onde reside.

"Quando a minha segunda mulher morreu, há cerca de sete anos, eu fiquei sozinho, como que meio perdido, estava-me a afundar na pinga e nas jantaradas, mas um dia fui à Festa das Boas Novas, em Mazarefes, vi o grupo de cavaquinhos a actuar, enamorei-me do instrumento e transformei-me num homem novo", conta.

Já faz parte do Grupo de Cavaquinhos de Mazarefes, nunca perde os ensaios, que normalmente se realizam aos sábados, e promete continuar a tocar "até quando deixar de ter unhas".

"O cavaquinho deu-me coragem para continuar a viver", confessa José Santos, um reformado da EDP que comunga do ditado "tristezas não pagam dívidas" e que, por isso, volta e meia, pega no seu instrumento e vai até ao quintal do lar, "tocar uma peçada".

No sábado, lá estará, na Praça da República, com o "seu" grupo, que partilhará o palco com o Grupo de Guitarras de Perre e a Orquestra Popular "Sopro de Cordas" de Outeiro.

Na véspera, será a vez de os grupos da Areosa e de Amonde mostrarem que, com quatro cordas apenas, se podem tocar grandes "cenas".

Júlio Viana lembra que o cavaquinho é um instrumento "acessível", tanto em termos de custo como de aprendizagem.

Quanto a preços, por 50 euros já se pode comprar um cavaquinho "corrente", mas os "mais elaborados" chegam aos 250 euros "e por aí acima".

Em apenas uma semana, e de acordo com o responsável da festa do cavaquinho, aprende-se a tocar o elementar para acompanhar, por exemplo, um rancho folclórico.

"O cavaquinho é um instrumento que, com o seu timbre agudo, colorido e irrequieto, salpica as nossas rusgas e romarias de música e de alegria", descreve.

Segundo Júlio Viana, foram os navegadores portugueses que levaram o cavaquinho para os quatro cantos do mundo, nomeadamente para o Brasil, em cujo panorama musical o instrumento ocupa hoje um "lugar de destaque".

"Em contrapartida - assinalou -, os portugueses, com excepção de Júlio Pereira, que fez um trabalho notável, relegaram o cavaquinho para um plano secundário, mas está na hora de o recolocar no lugar a que tem direito".

É precisamente esse o objectivo subjacente à Festa do Cavaquinho, uma organização da delegação de Viana do Castelo do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL) e da VianaFestas, responsável pelas festas da cidade.

"Depois de uma primeira aposta na concertina, que consideramos ganha, apontámos agora baterias para o cavaquinho, outro instrumento muito querido das gentes do Alto Minho", disse António Pereira, delegado em Viana do Castelo do INATEL.

PUB