Festival Iminente celebra dez anos em espaço com "muitos desafios" e "muitas possibilidades"
O Festival Iminente celebra dez anos este mês com uma edição que junta artistas que fazem parte da sua história e outros que participam pela primeira vez, num espaço em Lisboa, que "trouxe muitos desafios" e também "muitas possibilidades".
O Festival Iminente, que junta música e artes plásticas, realiza-se este ano, pela primeira vez, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, encerrada há 15 anos, por estar situada no caminho do projeto da Terceira Travessia sobre o Tejo, entre Chelas e Barreiro, que permitiria a passagem do comboio de alta velocidade.
O espaço, entretanto votado ao abandono, "trouxe muitos desafios e também abriu muitas possibilidades" à organização, disse à Lusa a diretora do festival, Juliana Almeida, hoje, numa visita àquele que, nos dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, será o recinto do Iminente.
"Quando entrámos aqui a primeira vez só havia lixo por todos os lados, em todas as salas, por todos os corredores. Esse foi um dos grandes desafios. Não havia água, não havia eletricidade. Estava mesmo ao abandono, com telhas a cair", descreveu.
Desde novembro que a organização está na antiga escola a "fazer uma revitalização de tudo o que é possível", sem mexer na estrutura, mas, por exemplo, abrindo algumas portas, tendo em conta o plano de emergência.
As paredes estão cobertas de graffiti, e o espaço será transformado "a partir das artes visuais, mas sempre respeitando o que já existia".
Ao longo dos anos, o edifício acabou por se tornar casa de pessoas em situação de sem-abrigo, situação que a organização do festival conhecia previamente.
Inicialmente eram 22 as pessoas que ali viviam quando a organização do festival chegou ao espaço.
"O Iminente nunca pediu para as pessoas saírem. Sempre acreditámos que há espaço para a coexistência", referiu.
Entretanto, em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, foi encontrada solução de alojamento para a maioria, mas seis quiseram manter-se na antiga escola.
"Essas pessoas mantêm-se aqui, vivem aqui e, obviamente, o público não vai poder aceder à zona onde vivem", disse Juliana Almeida, referindo que duas das pessoas que ali vivem estão a trabalhar com a organização, "na preparação do espaço, e nas artes visuais".
Ainda segundo Juliana Almeida, durante os dias do Iminente, a organização garantiu um alojamento perto da antiga escola, onde essas pessoas poderão passar a noite, mas tendo acesso ao festival, se assim entenderem.
"Essa ideia de coexistência, que é muito forte no Iminente, está a ser aplicada aqui, de uma forma até física, porque estamos a fazer o festival, a preparar o festival e há pessoas que vivem aqui. Mas estamos alinhados, temos um diálogo aberto com todas as pessoas que ainda habitam o espaço", disse.
A ideia de "coexistência" reflete-se, por exemplo, no cartaz musical, que junta artistas consagrados e emergentes, vários estilos musicais, do rap ao hardcore, passando pelo rock, o fado, a música de intervenção ou o funaná.
Ao longo dos quatro dias, serão mais de 140 os artistas que irão atuar em cinco palcos.
Entre os artistas e bandas estão nomes como DJ Premier, Ustad Fazel Sapand, AJULLIACOSTA, La Familia Gitana, Dead City, Sam The Kid (que, com Orquestra e Orelha Negra, irá apresentar o álbum "Beats Vol.1: Amor"), Mind Da Gap, Micro, Mão Morta, num espetáculo com o acordeonista João Barradas e a artista visual Mariana Vilanova, Dino d`Santiago, Batida, Lena d`Água, La Familia Gitana, Gisela João, DJ Marfox e DJ Nigga Fox, Ana Lua Caiano, A Garota Não e UN!DD, projeto que junta Aca´cia Maior, Cachupa Psicade´lica, Fidju Kitxora, Pre´tu e Scu´ru Fitchadu.
Na visita ao espaço, guiada também pelo DJ Marfox, que foi estudante na escola, finalista no ano em que o espaço encerrou, ficou a saber-se que o Palco Campo será instalado num dos antigos campos de futebol, cujo chão será intervencionado pela dupla Halfstudio e que no dia 19 irá mesmo voltar a acolher um jogo com equipas de vários clubes de futebol de bairros lisboetas.
Nesta edição regressa o Palco Choque, instalado numa pista de carrinhos de choque, que ficará numa área onde havia um segundo campo de futebol.
Num outro espaço exterior, um antigo campo de ténis, ficará o Palco Court, onde atuarão vários DJ, um `halfpipe` e várias intervenções artísticas.
É também ali que no último dia será instalado um `picadeiro`, da responsabilidade do Festival Precárias, com atividades pensadas para o público infantil.
Já no interior do edifício, o antigo refeitório e sala de lazer, onde se faziam os bailes de finalistas e que está a ser intervencionado pela 3D Crew, vai acolher o Palco Cantina.
Numa das noites, o Planeta Manas, que fechou em 2025, voltará ali a ter um espaço, "transformando o encerramento de um espaço queer num argumento sobre continuidade, cidade e pertença".
Haverá também uma noite de celebração da cultura de Cabo Verde, com concertos de funaná, e uma outra de concertos Duro de Roer, evento dedicado à cena hardcore e metalcore.
Noutros espaços interiores, que em tempos foram salas de aulas, laboratórios ou oficinas, estarão a exposição do projeto Bairros (programa de trabalho continuado do Iminente com associações e comunidades de Lisboa), zonas de restauração, lojas, haverá sessões de cinema, conversas, performances de dança e instalações artísticas.
O antigo ginásio, o único espaço aberto ao público no piso de cima do edifício, vai acolher uma instalação de Vhils, uma nova forma de apresentar, com recurso a meios audiovisuais, a obra do artista dedicada ao escritor José Saramago, que está na praia de Paimogo, na Lourinhã.
O Nobel da Literatura foi, a par de outras figuras públicas como o antigo líder do PCP Jerónimo de Sousa e o treinador de futebol Fernando Santos, estudante daquela escola, inaugurada em 1956 e que, quando do encerramento, contava com 290 alunos e 80 professores.
Além de Vhils, dos Halfstudio e da 3D Crew, o cartaz das artes plásticas inclui ainda artistas como Wasted Rita, ±MaisMenos±, Tamara Alves, Pedrêz, Pedrita, Obey SKTR, Halfstudio, KRUS.
A programação completa pode ser consultada no `site` www.festivaliminente.com.
Os passes para os quatro dias de festival custam 60 euros (mais taxas), havendo também passes para três dias (17, 18 e 19; 18, 19 e 20), que custam 55 euros, passes para dois dias (19 e 20), por 38 euros, e bilhetes diários, por 20 euros. A estes preços acrescentam-se taxas.
O recinto tem capacidade para cinco mil pessoas por dia.