Filipe Madeira e Vânia Saraiva vencem concurso de ideias para Mercado de Santa Clara
Lisboa, 14 dez (Lusa) - Os arquitetos Filipe Madeira e Vânia Saraiva são os autores da proposta vencedora do concurso de ideias para o Mercado de Santa Clara, anunciou hoje a Trienal de Arquitetura de Lisboa.
O anúncio dos premiados do concurso foi realizado numa sessão que decorreu no salão nobre do Palácio Sinel de Cordes, sede da Trienal, organizadora da iniciativa, que distinguiu ainda dois projetos com menções honrosas.
O júri também decidiu atribuir menções honrosas ao arquiteto Rui Mendes e à equipa composta por João Pedro Cravo, Bernardo Sousa, Diogo Lafaia e Pauline Gasqueton.
O concurso de ideias, que recebeu 26 propostas, tinha sido lançado em julho, desafiando arquitetos a pensar a adaptação do Mercado de Santa Clara a novos usos, lançando a reflexão pública sobre a sua utilização futura.
De acordo com a organização, a proposta de Filipe Madeira e Vânia Saraiva apresenta uma solução "que, através de um sistema de compartimentação pragmático e flexível de telas reguláveis em altura, permite facilmente diferentes configurações, tipologias e transformações do espaço do mercado".
Para o júri, a proposta da dupla de arquitetos, "é a que melhor viabiliza o programa, resolvendo também algumas questões técnicas do edifício, como o controlo da luz natural, abrindo a possibilidade de leitura da nave na sua totalidade até à sua múltipla compartimentação".
"A solução proporciona a futuros utilizadores a possibilidade de economia de meios de suporte na realização de uma diversidade de eventos", justificou ainda o júri.
O júri decidiu atribuir ainda menções honrosas a Rui Mendes, que apresentou uma proposta que "promove a utilização pública do edifício em conjunto com o espaço urbano" e, à equipa composta por João Pedro Cravo, Bernardo Sousa, Diogo Lafaia e Pauline Gasqueton, com uma proposta que pretendeu "musealizar o edifício, propondo pequenas intervenções construídas que serão a âncora dos núcleos programáticos".
Promovida no quadro do programa de revitalização dos mercados da Câmara Municipal de Lisboa, esta iniciativa tem como objetivo integrar o Mercado de Santa Clara na rede de espaços dedicados a empresas e projetos no setor das indústrias criativas como o Mercado do Bairro Alto, o FabLab Lisboa, o Pólo das Gaivotas, a incubadora criativa municipal a funcionar na Mouraria, entre outros.
Adicionalmente, segundo a Trienal, o mercado será também a nova sede do Clube dos Criativos de Portugal (CCP) que assumirá, em 2018, a programação, "ativando exposições, formação, festas, concertos e uma biblioteca criativa, ajudando também a que o renascido mercado se torne um espaço de referência para a comunidade local e criativa", de acordo com a Trienal, que cita a vogal do CCP, Ana Castanho.
Para o presidente da Trienal de Lisboa, José Mateus, a opção pelo concurso de ideias significa que a entidade acredita na importância deste modelo "para abrir e promover o debate sobre pontos estratégicos da cidade", no quadro da "discussão pública" de soluções para a capital.
Os membros do júri do concurso de ideias foram Alberto Souza Oliveira, Matilde Cardoso (da junta de freguesia de São Vicente), Margarida Grácio Nunes (da Câmara Municipal de Lisboa), José Mateus (da Trienal de Arquitectura de Lisboa) e Pedro Geraldes (Clube de Criativos de Portugal).
Da autoria do arquiteto Emiliano Augusto de Bettencourt, o Mercado de Santa Clara servia como mercado abastecedor e é um exemplo da utilização privilegiada do ferro em arquitetura, típica do fontismo do final do século XIX, patente na estrutura da nave e nos portões de ferro forjado, recorda a organizadora do concurso.
A história do mercado está associada à da Feira da Ladra que, em 1882, passou a preencher o espaço circundante, e desde 2011, acolhe o Centro das Artes Culinárias, resultado duma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e As Idades dos Sabores -- Associação para o Estudo e Promoção das Artes Culinárias.
No espaço são apresentadas oficinas, venda de publicações, produtos tradicionais, entre outros eventos temáticos.
Inaugurado em outubro de 1877, no coração da freguesia de S. Vicente, o Mercado de Santa Clara (antigamente designado de Oriental), é o mais antigo mercado coberto de Lisboa.
O Campo de Santa Clara é uma zona de Lisboa marcada por diversos acontecimentos históricos, já que foi neste solo que Afonso Henriques acampou as tropas que planearam a conquista de Lisboa aos mouros, no século XII.
Mais tarde, foi ali que se construiu a Igreja Mosteiro de S. Vicente, que, por ser terreno baldio e com pouca população, se tornou em "campo da forca", onde se executavam penas capitais. Também ali, no século XIII, foi construído o Mosteiro de Santa Clara, que deu nome à zona.
Na segunda metade do século XIX, foi neste local que se edificou o mercado, que é envolvido, todas as terças-feiras e sábados, pela Feira da Ladra.
Em 1926, tornou-se mercado agrícola onde se podiam encontrar bancadas de venda de legumes e frutas, de peixe e carne.