Filme "Lust, Caution" aquece debate sobre sexo e política

Pequim, 05 Dez (Lusa) - Um mês depois do lançamento na China de "Lust, Caution", o filme premiado de Ang Lee continua a gerar polémica devido ao conteúdo sexual explícito e às insinuações políticas, afirma hoje a imprensa estatal chinesa.

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O filme contém cenas sexuais explícitas e o próprio realizador aceitou cortar sete minutos da versão integral antes da sua exibição na China, afirma o jornal oficial China Daily.

"Lust, Caution" venceu o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza e já se tornou um êxito na China, com as receitas de bilheteira a ultrapassar os dez milhões de renminbi (cerca de 900 mil euros) após a segunda semana de exibição.

Muitas pessoas ficaram insatisfeitas com o corte das cenas de sexo e optaram por fazer o descarregar a versão integral de "Lust, Caution" da Internet.

Outros cinéfilos viajaram até Hong Kong para poderem assistir ao filme, com direito a ver as imagens censuradas.

Em apenas duas semanas de exibição em Taiwan, onde foi exibida a versão integral, "Lust, Caution" também bateu recordes de bilheteira e arrecadou 2,22 milhões de dólares (cerca de 1,5 milhões de euros), segundo a distribuidora Buena Vista.

O último recorde de bilheteira em Taiwan pertencia a outro filme de Ang Lee, "O Tigre e o Dragão", premiado com quatro Óscares em 2000 (incluindo o de melhor filme estrangeiro), e que obteve 1,86 milhões de dólares (cerca de 1,26 milhões de euros) nas duas primeiras semanas em cartaz.

Nos forúns online, o filme de Ang Lee gerou novo debate sobre a classificação etária dos filmes, que não existe na China.

Um crítico afirmou que "o verdadeiro significado da exibição do filme na China continental reside na retoma do debate sobre o sistema de classificação".

Em 2001, Wang Xingdong, realizador e membro da Câmara Consultiva Política do Povo Chinês, principal órgão de aconselhamento governamental, foi um dos primeiros a pedir um sistema de classificação para filmes, mas nos seis anos seguintes a ideia só foi retomada por alguns oficiais da Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (SARFT, na sigla em inglês).

Depois de ver a versão censurada de "Lust, Caution", Dong Yanbin, um estudante de doutoramento de Pequim, processou a SARFT e a UME, o cinema que exibiu o filme, por violação dos seus "direitos de consumidor", segundo informou a imprensa chinesa.

A UME violou os "direitos de comércio justo" e a SARFT infringiu o "interesse público da sociedade" por falha na implementação de um sistema de classificação que permitisse aos adultos ver o filme, alegou Dong.

Enquanto a controvérsia acerca das cenas de sexo explícito continua em todo o mundo, alguns críticos deram outro enfoque à polémica e centraram-na na conotação política.

A acção de "Lust, Caution" (ou "Luxúria, Cuidado", em português) acontece em Xangai, na década de 40 e em plena Segunda Guerra Mundial, durante a invasão japonesa. Baseada num conto da novelista chinesa Eileen Chang, "Lust, Caution" centra-se na relação sexual entre uma estudante activista que tenta seduzir um chefe dos serviços secretos aliado dos japoneses.

"O aspecto mais forte do filme não é o sexo, mas a política", escreveu Yau Lop Poon, editor do jornal Yazhou Zhoukan (Asian Weekly) de Hong Kong.

A película mostra perante uma audiência mundial o "sofrimento chinês" num período histórico trágico em que centenas de milhares de chineses viveram o contexto da invasão japonesa, observou Yau.

Mas em debates organizados pela academia cibernética de Pequim "Utopia", alguns críticos e especialistas culturais criticaram o filme pelo seu cariz político negativo, afirmou Fan Jinggang, administrador do site na Internet.

"É um filme político cheio de metáforas políticas...é um insulto para as mulheres chinesas virtuosas", declarou o realizador Zhou Guojin em comentários publicados no site.

Zhu Dongli, um investigador de uma academia que colabora com o Ministério da Cultura chinês, declarou que "o filme é um insulto para a nação chinesa ... é difícil imaginar os israelitas a fazer um filme semelhante", como se pode ler no site.

Numa carta aberta publicada online, sete estudantes universitários de Pequim catalogaram o filme de "veneno obsceno", acusando-o de degradar a imagem das "mulheres chinesas" retratando-as como "prostitutas e adoradoras de traidores pró-japoneses".

Foi o próprio Ang Lee, que em 2005 ganhou o Óscar de melhor realizador com "O segredo de Brockeback Mountain", que seleccionou os cortes em "Lust, caution", para que este fosse aprovado pela censura chinesa.

O realizador de Taiwan afirmou na apresentação do filme que as cenas da última parte do filme são importantes para entender a complicada relação de dor e prazer, de amor e ódio, entre os protagonistas.

No passado mês de Novembro, alguns piratas cibernautas lançaram um vírus em várias centenas de sites, fóruns e blogues relacionados com o filme, avisou o jornal Beijing Daily citando a Rising, uma empresa especializada na produção de anti-vírus.

O vírus atacou os computadores de muitas das pessoas que pesquisaram ou tentaram obter a versão integral do filme online.

VZP

Lusa/Fim


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