Fotografias de italiano que viveu os dois lados da revolução expostas em Brasília
Brasília acolhe a partir de hoje uma exposição do fotojornalista italiano Uliano Lucas sobre o quotidiano dos movimentos de libertação em África e o contraste dos rostos em Portugal, antes e após o 25 de Abril.
A exposição "Revoluções--Guiné-Bissau, Angola e Portugal (1969-1974)", realizada pelas embaixadas de Portugal e Itália no Brasil, em parceria com o Camões-Centro Cultural Português em Brasília, pode ser vista no Museu Nacional da República da capital brasileira, demonstrando o papel que fotojornalistas, como Uliano Lucas, tiveram em "dar visibilidade àquela que era a luta de libertação dos povos colonizados, mas também do 25 de Abril", explicou Miguel Cardina, um dos curadores da exposição.
"Talvez o único fotojornalista que conhecemos que esteve nas zonas libertadas (...) e que está nos primeiros dias do 25 de Abril", disse à Lusa, acrescentando que a exposição "ajuda a situar o 25 de Abril num contexto internacional", na visão de um fotojornalista estrangeiro.
À Lusa, o embaixador de Portugal no Brasil fala de uma exposição que aborda "uma perspetiva diferente e muito válida da situação colonial", em que "aqui os heróis são aqueles que em Angola, na Guiné-Bissau e em Portugal lutaram pela liberdade, tudo através dos únicos disparos que deveriam ser admitidos, os de uma câmara fotográfica".
Ao todo, estão em exposição até 07 de julho 56 fotografias, algumas inéditas, com curadoria dos professores italianos Vincenzo Russo e Elisa Alberani e do português Miguel Cardina.
A mostra divide-se em três momentos distintos: o contexto da luta de libertação na Guiné-Bissau e em Angola, duas viagens de Uliano Lucas - primeiro à Guiné-Bissau e Angola, em 1972, e uma viagem a várias cidades portugueses nesses mesmo ano - e, por fim, os dias logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 e o 1.º de Maio em 1974, sobretudo em Lisboa.
Na primeira fase, é retratado "o quotidiano dos movimentos de libertação do PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde] e do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola ]", resumiu assim Miguel Cardina.
"Por um lado, o 25 de Abril é resultado de lutas de libertação prévias. Sem as lutas de libertação não teria existido o 25 de Abril. De alguma maneira aquilo que foi o trabalho e a luta dos movimentos de libertação para a sua própria emancipação produziu as condições para uma revolta militar e para o fim da ditadura", afirmou o curador.
Nas fotografias em Angola e Guiné-Bissau, o fotojornalista de 81 anos não pretendeu focar a lente no "olhar miserabilista, nem o olhar da exploração, da pobreza, nem olhar daquilo que ele designa como pornografia da guerra, violência, corpos mutilados, etc", explicou o curador português.
Pretendeu dar "um contexto de quotidiano daquelas pessoas, a forma como elas se relacionam, mulheres e crianças, do que comiam, de momentos de descanso, de momentos de organização social, de escola, da saúde, até a educação social".
"O 25 de Abril em Portugal é filha da luta dos povos africanos", sublinhou.
Já em Portugal, as fotografias escolhidas, em 1972, retratam os rostos e quotidiano de uma população que, depois com a queda da ditadura, muda de face com uma expressão "por um lado a alegria, por outro o espanto com o mundo novo que se está a abrir"
"Pessoas que estão na rua em comunhão, no fundo a construir aquilo que depois serão os dias imensos que irão pavimentar o caminho para a democracia portuguesa", detalhou o curador.
O embaixador de Portugal no Brasil frisou também a importância destas celebrações dos 50 anos do 25 de Abril serem feitas também no Brasil, já que foi a revolução portuguesa que "iniciou a chamada terceira vaga das revoluções democráticas" e "inspirou a democracia brasileira".
Para Luís Faro Ramos, a atualidade política e social vivida em Portugal e no Brasil "torna, sem dúvida, ainda mais importante a recordação do 25 de abril de 1974".
"Porque as diversas gerações que, em Portugal e no Brasil, nunca souberam o que era viver privado de liberdade, devem saber como era isso, para se mobilizarem e combaterem ideias xenófobas e preconceituosas, que infelizmente crescem um pouco por todo o mundo. A democracia nunca é um dado adquirido", disse.