Galerias MIRA celebram cinco anos de uma "loucura" instalada em Campanhã

| Cultura

O Espaço MIRA e o MIRA Fórum celebram este sábado o quinto aniversário de uma "loucura" dos fundadores, surpreendidos pelo sucesso e impacto do projeto cultural ancorado na fotografia, mas aberto a todas as vertentes artísticas.

O projeto nasceu da cabeça dos fotógrafos Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, hoje com 68 anos, que admitem que toda a gente achou que estavam "loucos em fazer uma galeria" na freguesia.

"Em Campanhã, costumamos dizer, `as pessoas chegam, as pessoas partem, mas as pessoas não estão`", comentou Monteiro, numa exclusão que também se combate pela arte e com uma "agenda cheia durante todo o ano", que as galerias têm registado.

Instalado há cinco anos em três de 11 antigos `armazéns de retém` da Estação de Campanhã, na rua de Miraflor, o Mira expandiu-se, em abril de 2017, para um novo espaço na rua Padre António Vieira, paralela à rua das galerias, ligado às artes performativas e sob a responsabilidade artística de Hugo Cruz.

Se a Galeria Mira é dedicada à arte contemporânea, sob direção artística de José Maia, Monteiro e Lafuente assumem a programação do Mira Fórum, virado para a fotografia, e ambos os espaços acolheram já mais de duas centenas de acontecimentos, entre exposições, debates, concertos, lançamentos de livros, `performances` ou sessões de cinema.

"Há aqui um processo de contágio, e é esta ligação imprevisível que nos faz pensar que vale a pena. Aconteceu outra coisa: as pessoas passaram a achar que Campanhã era uma hipótese", acrescentou Manuela Matos Monteiro, que vê a venda dos restantes armazéns, bem como o reavivar de "outros espaços adormecidos", como um sinal do "espírito positivo" que ganhou a freguesia "mais pobre, desprotegida e excluída da cidade".

Tanto os artistas como o público vão das faixas etárias mais jovens até "nomes consagrados com 70 e tal" anos, numa continuidade de uma "diversidade muito grande" que leva a uma "contaminação de interesses" em público que não tem o hábito, por exemplo, de "ir a outras galerias de arte contemporânea".

"Isto ultrapassou-nos completamente. Gostamos da palavra disponibilidade, e é esse o grande segredo para projetos bem conseguidos. É isso que nos caracteriza. Estamos muito, muito contentes, tanto que viemos viver aqui para Miraflor", contou Manuela.

O sucesso nos últimos cinco anos "foi uma surpresa" que também se relaciona "com a vitalidade da cidade e a dinâmica que se tem criado entre artistas, curadores, ativistas, e também a comunidade, e os vizinhos".

"Esta nossa presença cá teve efeito ao nível da cidade, porque as pessoas passaram a vir a Campanhã para cá vir, e teve efeito na auto-estima da comunidade envolvente", afirmou a fotógrafa.

Já João Lafuente destaca o "projeto do Matadouro", da Câmara do Porto, como algo que poderá trazer "um grande impacto" à zona, que já viu, por exemplo, a reativação do Espaço Campanhã, na rua de Pinto Bessa, entre outros projetos que se instalaram, desde então, na freguesia.

A celebração dos cinco anos concentra-se no sábado, com a inauguração de uma exposição da fotógrafa Violeta Moura, num olhar sobre o tecido social de Portugal, além de um percurso encenado que atravessa os vários espaços das Galerias e da própria zona envolvente.

Janis Joplin, Frida Kahlo, ou uma idosa de Campanhã cruzam-se nos sete monólogos que habitam o percurso "Entre Miras", que arranca na área dedicada às artes performativas e atravessa uma ilha habitacional antes de chegar às galerias.

Com textos de Filipe Pinto, Pedro Pinto, Ana Cristina Pereira ou Roberto Merino, nomes da cidade, e retirados de anteriores encenações de Luísa Pinto e de outros trabalhos, o "percurso performativo" procura "abraçar as várias expressões artísticas que povoam as Galerias MIRA", adiantou à Lusa a encenadora, Luísa Pinto.

Apresentado pelas 21:30 de sábado, com entrada livre, várias atrizes dão vida aos diferentes monólogos, num trabalho artístico que combina "artes plásticas ou a arquitetura", e "as vivências numa cidade como o Porto e esta zona tão deprimida de Campanhã, com temas como a solidão, o envelhecimento ou o abandono, mas também o racismo".

O tipo de trabalho liga-se ainda à área de intervenção artística da encenadora, que, em 2017, dirigiu o espetáculo "Filho Pródigo", com oito reclusos e reclusas dos estabelecimentos prisionais de Santa Cruz do Bispo, apresentado no Mira - artes performativas.

A mostra do regresso de Violeta Moura a um trabalho sobre Portugal, depois do último, sobre a crise económica, aplica "um olhar muito crítico sobre a sociedade" que desenvolveu ao trabalhar no estrangeiro sobre realidades e figuras "bastante políticas, ativistas e dissidentes", explicou à Lusa.

"A ideia é uma espécie de relato pessoal, um artigo de opinião visual sobre o país, sobre aquilo que identifico que poderá melhorar", referiu a fotógrafa, que destacou as melhorias necessárias no que toca à discriminação de vários tipos, não a nível institucional, mas também social, porque "o país também é feito de pessoas".

Manuela Matos Monteiro espera que o Mira possa manter "um bom ambiente, muito informal e de grande proximidade", até quando deixarem o projeto, bem como o grande "apoio e trabalho coletivo" da pequena equipa, muitas vezes ajudada pelos "artistas, curadores e amigos" que acodem a um "SOS" que possam precisar de lançar.

"O nosso grande plano é estarmos disponíveis para tudo o que aparecer, e é isso que vamos continuar a fazer, pelo menos nos próximos cinco anos", resume João Lafuente, enquanto Manuela Matos Monteiro não tem dúvidas: "venham mais cinco, venham mais 10".

Tópicos:

Campanhã, Cruz, Matadouro, Mira, Miraflor,

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