Galerista António Homem recria em Lisboa o "choque" da arte pop nos anos 1960
Lisboa, 04 fev (Lusa) - O galerista português António Homem, que privou com artistas como Andy Warhol e Robert Rauschenberg, espera conseguir recriar no Museu Vieira da Silva, em Lisboa, o "choque" que a arte pop provocou, quando entrou na Europa nos anos 1960.
A exposição de 49 obras da coleção Sonnabend é inaugurada na quinta-feira, no âmbito dos 25 anos da criação da Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva e dos vinte anos da existência do museu com o mesmo nome, em Lisboa.
Numa visita guiada aos jornalistas, António Homem admitiu que, "talvez ainda hoje, muitas das obras provoquem um efeito surpresa no público".
Esta mostra assinala a importância da galeria Sonnabend nos seus primeiros cinco anos de funcionamento em Paris - entre 1962 e 1967 -, quando muitos artistas norte-americanos apresentaram obras na Europa pela primeira vez.
"Foi um choque para os europeus verem as obras de artistas norte-americanos, e ainda mais em 1964, quando Rauschenberg conquistou o Leão de Ouro na Bienal de Arte de Veneza. Nunca se imaginou que tal fosse possível, já que a América era considerada uma zona de segunda importância na arte", recordou António Homem.
O galerista, de 75 anos, que continua a gerir esta coleção privada de arte, uma das mais importantes a nível internacional, nunca imaginou que o seu destino iria passar pela ebulição artística parisiense e nova-iorquina.
Partiu de Lisboa para a Suíça em 1956, para estudar engenharia, mas a sua vida mudou quando conheceu os galeristas e colecionadores Ileana e Michael Sonnabend, com quem fez amizade e iniciou uma colaboração profissional.
Residente em Nova Iorque desde 1989, dirigiu a Galeria Sonnabend na cidade juntamente com Ileana Sonnabend até à sua morte, em 2007, data em que herdou a Galeria e a coleção, com Nina Sundell, filha do primeiro casamento de Ileana, com Léo Castelli.
"Fazer aqui uma exposição em Lisboa acontece num momento em que o meu passado e o presente se unem", confessou, durante a visita ao percurso de obras cujos autores conheceu de perto e, de muitos dos quais, continua amigo.
Para António Homem, as obras agora expostas no Museu Vieira da Silva, na sua maioria de `arte pop` - como as icónicas de Andy Warhol Caixas Brillo, Sopas Campbell e retratos de famosos como Jackie Kennedy - "têm sempre algo de novo para descobrir".
O contacto com os artistas permitiu-lhe descobrir as suas idiossincrasias: Rauschenberg (1925-2008), por exemplo, adorava estar rodeado de flores, mas detestava as artificiais, que não murchavam.
"Ele gostava de usar na arte os objetos do quotidiano, mas, ao contrário do que se pensa, a intenção não era fazer crítica social à sociedade de consumo, mas encontrar a beleza no seu desgaste", apontou.
Por seu lado, Andy Warhol (1928-1987) "nunca foi realmente compreendido". "Tinha um sentido de humor muito interessante e dava respostas simples aos jornalistas que os confundia, mas o seu objetivo era fazer pensar".
"Havia um sentido filosófico nas suas palavras, que era o de ensinar, não por aquilo que se diz, mas por aquilo que se fez o outro dizer", recordou António Homem.
O uso de objetos do quotidiano em muitas das obras expostas tem como objetivo "retirá-los da sua função quotidiana e dar-lhes outro significado": Arman (1928-2005) usa o lixo, partindo da ideia de que "somos o lixo que fazemos", Rauschenberg usa um chapéu ou fotografias como pinceladas de tinta.
Na mostra, intitulada "Sonnabend. Paris -- New York", vão estar representados, até 03 de maio, 15 artistas, entre os quais Jasper Johns, Jim Dine, Mario Schifano, Roy Lichtenstein, Andy George Segal, Michelangelo Pistoletto, John Chamberlain, Robert Watts, Tom Wesselmann, James Rosenquist, Claes Oldenburg e Larry Bell, além de Warhol, Arman e Rauschenberg.