Galeristas na ARCO criticam gestão "infantil" e "incompetente" da coleção Miró do ex-BPN

Madrid, 19 fev (Lusa) - Galeristas portugueses presentes na ARCO, em Madrid, mostraram-se hoje divididos sobre se a coleção de Joan Miró, do ex-BPN, deverá ou não ficar em Portugal, mas coincidem nas críticas à gestão "infantil", "incompetente" e "vergonhosa" do caso.

Lusa /

"Não me interessa se [os quadros] ficam ou não ficam em Portugal. É uma questão a analisar. Mas toda a gestão é completamente vergonhosa", disse à Lusa a galerista Cristina Guerra.

"Não sei como o secretário de Estado [da Cultura] não se demitiu - não é que tenha sido demitido. Acho vergonhoso como não toma uma atitude. As pessoas não podem passar a vida a alinhar com disparates", disse.

Para Cristina Guerra, o caso, "completamente inacreditável", só serve para agudizar uma má impressão que já está a afetar as perceções sobre Portugal no estrangeiro.

"Grandes museus portugueses têm tido dificuldades para conseguirem empréstimos de obras de colecionadores e de outros museus que têm medo que não voltem. Há uma certa desconfiança sobre o país", disse.

"É uma desconfiança relativamente ao país que se repercute a todos os níveis. Acho absolutamente inacreditável que ocorra toda esta cambada de disparates e ninguém seja responsabilizado", comentou.

Manuel Santos, da galeria Filomena Soares, disse que soube do caso durante uma visita ao México, onde os galeristas mexicanos com que estava "se mostraram chocados com a vergonha como o processo estava a ser conduzido".

Santos, que disse à Lusa ter participado na compra dos quadros - sem explicar como interveio no processo -, considera que estes nunca devem ser vendidos por menos de 90 milhões de euros.

"É um dos grandes tesouros que temos e temos a possibilidade de ficar com eles. É uma das melhores coleções privadas do mundo. Não é um conjunto de quadros, mas sim uma coleção que acompanha a trajetória do artista, vai de 1927 a 1962, e abrange todas as épocas da vida de Miró", afirmou.

Também o galerista Manuel Carvalho se mostra crítico, afirmando que, independentemente dos contornos políticos do caso, é evidente "a muito má forma como o processo foi conduzido".

"É uma colação fantástica que deveria ficar em Portugal. A coleção já está em Portugal e deveríamos fazer todos os esforços para que continuasse cá. Se calhar vão ser vendidos abaixo do que valem ou valerão no futuro. É um bem para o futuro, um bem para o país. E se há espaço para outras coleções, porque não para esta?", interrogou-se.

Pedro Cera, por seu lado, considera que o debate sobre o futuro dos quadros deve ir além do saber se ficam ou não em Portugal, já que "os Miró não são um objetivo em si mesmo".

"Mas, se a partir dessa coleção, [os quadros] ajudarem a refletir e a criar uma dinâmica qualquer tendente à criação de uma grande coleção de arte contemporânea e modernista em Portugal, faz todo o sentido pensar em conservar essas obras de arte", disse.

Atualmente não há ninguém, com as verbas disponíveis, capaz de realizar essa coleção, mas as obras de Miró podem ser "uma alavanca" para isso, acrescentou.

"Portugal, sinceramente, não precisa de 85 Miró. Mas fazia todo o sentido ficar com os melhores, dentro de uma nova coleção que se viesse a fazer, e usar os outros para financiar essa coleção. 85 Miró, em Portugal, não representam muito, exceto um grande acervo desse artista em Portugal", disse.

Carlos Carvalho considera que a forma como o caso foi tratado demonstra a "mediocridade dos políticos", tanto no Governo como na oposição.

"Há espaços de debate sobre os erros, alguns grosseiros, e a estupidez do Governo neste processo. Mas também da oposição [há] comentários que parecem fazer disto a causa fundamental da pátria, quando não o é", afirmou.

"As coisas têm de se resolver com bom senso, legalidade e com respeito. E há muita demagogia e muito aproveitamento partidário desnecessário", considerou o galerista de Lisboa.

Fátima Mota da Fonseca Macedo, da galeria açoreana, diz que o caso lhe provoca "tristeza e desgosto".

"Tenho sempre muito desgosto de ver o meu país ter atitudes muito pouco aceitáveis, entre o infantil e o incompetente. Desagrada-me muito", disse.

"Não sei se deveria ficar parte ou toda a coleção. Mas a forma como as coisas são tratadas é que me causa desgosto. Se calhar, até faz sentido que [os quadros] sejam vendidos. Mas a forma como isto foi conduzido é que é muito negativa", afirmou.

Treze galerias portuguesas participam na 33.ª edição da ARCO Madrid que decorre a partir de hoje, até domingo, na capital espanhola.

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