Governo alemão adia decisão sobre futuro da diretora do festival de Berlim

Governo alemão adia decisão sobre futuro da diretora do festival de Berlim

O governo alemão adiou hoje uma decisão sobre a continuidade da diretora artística do festival de cinema de Berlim, Tricia Tuttle, que está no centro de uma polémica sobre Israel e Gaza.

Lusa /

O executivo alemão tinha anunciado para hoje uma reunião do conselho de supervisão da empresa KBB, que é responsável pela realização do festival de Berlim, para decidir sobre o futuro da diretora artística e sobre "as orientações da `Berlinale`", mas não foi ainda tomada uma decisão.

"As conversas sobre a orientação da `Berlinale` continuarão nos próximos dias entre a diretora, Tricia Tuttle, e o conselho de supervisão", revelou um porta-voz do ministro alemão da Cultura, Wolfram Weimer, à imprensa.

Em causa estão declarações proferidas pelo realizador sírio-palestiniano Abdallah Alkhatib, no sábado, na cerimónia de encerramento do festival de Berlim, acusando o governo alemão de ser "cúmplice do genocídio em Gaza" ao apoiar Israel.

"Recordaremos todos aqueles que estiveram ao nosso lado e vamos lembrar-nos de todos os que estiveram contra nós, contra o nosso direito de viver com dignidade, ou que optaram pelo silêncio", disse o realizador, premiado pelo filme "Chronicles from the siege".

O ministro alemão do Ambiente, Carsten Schneider, abandonou de imediato a cerimónia e considerou aquelas declarações uma "ameaça implícita".

Esta semana, o jornal Bild noticiou como certa a demissão de Tricia Tuttle da direção do festival, mas tal não foi confirmado pelo governo alemão, referindo que o encontro foi marcado para "esclarecer os factos ocorridos" na 76.ª edição do festival e para "discutir o futuro" do evento.

O mesmo jornal publicou uma fotografia, alegadamente tirada na semana passada, na qual Tricia Tuttle surge ao lado de elementos da equipa do filme "Chronicles from the siege", que empunhavam bandeiras da Palestina.

Desde o fim da `Berlinale` e do anúncio desta reunião, mais de 1.600 pessoas ligadas à indústria cinematográfica dentro e fora da Alemanha assinaram uma carta aberta em defesa da independência institucional do festival e da sua direção artística.

"A Berlinale é mais do que uma passadeira vermelha ou uma série de manchetes. É um espaço onde se cruzam perspetivas, se questionam narrativas e onde as tensões sociais são abordadas. É aqui que o discurso se desenrola -- no coração do cinema", lê-se na carta aberta.

Para os signatários, entre os quais a atriz Tilda Swinton e os realizadores Todd Haynes, Sean Baker, Ilker Çatak e Ari Folman, o festival de Berlim "sempre foi político -- não partidário, mas socialmente engajado".

Também mais de 500 pessoas que trabalham no festival saíram hoje em defesa de Tricia Tuttle, que é diretora artística da Berlinale desde 2024.

A 76.ª edição do Festival de Berlim, que terminou no domingo, começou debaixo de polémica pelas declarações do realizador Wim Wenders -- que presidiu ao júri -, que considera que os cineastas devem manter-se à margem da política.

"Se fizéssemos filmes dedicados à política, entraríamos nesse domínio da política. Mas nós somos o contrapeso da política. Somos o contrário da política. Temos de fazer o trabalho das pessoas e não o trabalho dos políticos", afirmou o cineasta, assumindo uma posição considerada excessivamente branda por muitos jornalistas.

Durante o festival, mais de 80 profissionais do cinema apelaram, numa carta aberta, a que a `Berlinale` se opusesse "ao genocídio" de Israel contra os palestinianos, e a diretora artística, Tricia Tuttle, emitiu um comunicado em defesa da liberdade de expressão do festival e de quem nele participa.

"Os artistas são livres para exercer o seu direito à liberdade de expressão da forma que entenderem. Dos artistas não se deve esperar que comentem todos os debates sobre práticas do festival sobre as quais não têm controlo. Nem se deve esperar que se pronunciem sobre todas as questões políticas que lhes são apresentadas, a menos que queiram fazê-lo", afirmou Tricia Tuttle.

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