Graffiters com "esperança" na "abertura" da Câmara do Porto à arte urbana
Porto, 02 nov (Lusa) -- É com expectativa que os graffiters olham para a "abertura" da nova Câmara do Porto sobre esta arte urbana, certos de que a mudança passa pelo fim da norma que os obriga a pagar para pintar na rua.
A taxa mínima de 40 euros para o licenciamento de grafitos, implementada pelo ex-autarca Rui Rio em fim de mandato, é contestada e desrespeitada pelos artistas Hazul, Fedor, e Mr. Dheo, que aos 28 anos ganha a vida a fazer grafitos e aceitou o desafio da Lusa para pintar um muro abandonado durante o dia, numa ação de quase sete horas.
Os três defendem a criação de espaços onde os sprays possam ser disparados livre e legalmente e deixam uma mensagem de "esperança" quanto ao novo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que no manifesto eleitoral defende a promoção da "arte de rua efémera" através de "um regulamento adequado".
A proposta, elaborada pelo vereador da Cultura Paulo Cunha e Silva, refere que "vão ser identificados espaços" destinados à arte urbana e que as normas servirão de "contraponto aos grafitos que têm vindo a causar graves danos e prejuízos em edifícios públicos e privados".
"A primeira medida seria acabar com essa taxa. É uma questão de tempo. Eu acredito, há sempre aquela esperança numa pessoa nova, com outra abertura, visão e sensibilidade. Rui Moreira pareceu-me pessoa muito mais aberta a este tipo de intervenções. A seu tempo vamos ver se realmente as coisas mudam", observa Dheo.
O artista, que participou no "maior mural privado do mundo feito em graffiti" em Abu Dhabi e deixou vários traços no Museu do FC Porto, vai direto à política para explicar o que defende.
"Se eu for político e quiser colocar um outdoor de 15 metros com a minha cara na rua não vou perguntar opinião a ninguém. As pessoas são obrigadas a ver, tal como são forçadas a ver as campanhas que as marcas querem que as pessoas vejam. Nesse sentido faz-me confusão que nós, enquanto criativos, não tenhamos esses espaços para nos expressar", observa.
Num intervalo da pintura no que resta do muro de uma antiga fábrica do Porto, o graffiter destaca que "pagar para pintar" será "caso único" no mundo.
"Tenho a sorte de viajar muito e em todas as cidades em que estive - e não estou a falar só de países muito desenvolvidos, mas também de cidades pequenas, pouco conhecidas -- somos pagos para deixar obras na rua", alerta.
Distinguindo as "tags" (assinaturas feitas em "três segundos") e os "bombings" (letras mais preenchidas) dos "wall of fame", as paredes e muros onde os graffiters podem "expressar a criatividade" em desenhos mais elaborados, Dheo defende esta última opção.
Autor de outro graffiti feito a pedido da Lusa, numa noite de muito frio, Hazul, de 32 anos, acha "insultuoso pagar para pintar", sobretudo porque o faz para "tentar acrescentar valor à cidade".
Depois da limpeza "sem critério" de Rui Rio, o graffiter está "um pouco mais otimista" em relação a Rui Moreira, sustentando que o novo autarca "estará mais aberto a criar condições para que os artistas tenham espaço na cidade".
"Nada vai durar sempre, mesmo que seja autorizado. Mesmo eu não gostaria que durassem sempre. A Câmara devia legalizar alguns espaços para as pessoas pintarem livremente. E, paralelamente, convidar os artistas para trabalhos em eventos ou algo que queiram de mais definitivo, e pagar por isso", defende.
Sem "compreender" a implementação de uma taxa para quem pinta com spray, Fedor, de 27 anos, observa que talvez o Porto tenha "tanto `bombing` porque nunca houve paredes legais".
"Se houvesse, se calhar conseguíamos influenciar as próximas gerações, convencê-los de que mais vale fazer trabalhos bonitos".