Grande Entrevista. Nuno Markl e o recurso ao humor na recuperação de dois AVC

Grande Entrevista. Nuno Markl e o recurso ao humor na recuperação de dois AVC

Nuno Markl recordou os dois acidentes vasculares cerebrais que sofreu em novembro de 2025 e cada "micro-conquista" do atual processo de recuperação. O apresentador do Taskmaster viu no humor uma forma de ultrapassar as fases mais delicadas da doença.

RTP / Adicionar como fonte informativa

Cumprem-se esta quinta-feira, dia 20 de agosto, nove meses desde o primeiro AVC que sofreu em casa, onde tinha em Pedro, o filho de 17 anos, a única possibilidade de ser socorrido.

Por não ter sentido dores, Nuno Markl explicou na Grande Entrevista da RTP, conduzida por Vítor Gonçalves, que nunca se apercebeu de que estava em risco de vida.

“Mestre em contar bizarrias na rádio”, na rubrica "O Homem que Mordeu o Cão", o humorista clarificou, de modo descontraído, que sofreu dois AVC numa ordem inversa à que é mais comum: primeiro o isquémico e só depois o hemorrágico.

Aos 55 anos, a figura do humor e do entretenimento em Portugal admite estar, acima de tudo, “grato por estar vivo”, depois de ultrapassar a “lotaria” que é o período imediatamente após um AVC.

“Aprendi a relativizar as pequenas chatices do dia-a-dia”, avançou. Reaprender a andar e a pensar em todos os detalhes é, ao dia de hoje, um dos maiores desafios que encontra: “É preciso tanto mecanismo para fazer uma coisa tão banal como andar”.
“Só apanhei profissionais incríveis”
O primeiro AVC é, agora, considerado um importante momento de paragem e mudança. “A minha vida era trabalho, trabalho, trabalho”, assumiu.

Perante os sintomas que resultavam da agitação de uma vida dedicada ao trabalho, atribuiu ao cansaço de acordar cedo e de não ter horas para adormcecer a razão para a sua fraquza.

Do Hospital de Cascais rumou ao São Francisco Xavier e, por último, ao Hospital de Egas Moniz, onde teve o segundo AVC, cinco dias após o primeiro episódio e num momento em que já sonhava com o regresso a casa.

“Sou forçosamente um novo Nuno. Começo a sentir isso a cada passo que dou (…) Não posso voltar ao caos”.

Só a relação familiar que foi estabelecendo com os médicos e enfermeiros permitiu, mesmo assim, “desdramatizar” a própria dependência para cada etapa da nova rotina, acredita.

“Só apanhei profissionais incríveis no Serviço Nacional de Saúde (…) Via o carinho daquelas pessoas para com toda a gente à minha volta”.
O papel do humor na recuperação de um AVC
Quando limitado a uma cama de hospital, Nuno Markl diz ter-se incomodado apenas com a “injustiça” da desinformação sobre a sua condição e os alegados privilégios que poderia estar a receber.

As “saudades da vida” foram o preço a pagar por seis meses de internamento e outros tantos de recuperação, que considera ser “uma maratona” sobre a qual não tem mais ilusões.

Se receber visitas “era um sopro de normalidade”, olhar para o potencial cómico do que era esta nova vida, “apesar do lado trágico”, fê-lo repensar o papel do humor como forma de ultrapassar até as situações mais delicadas.

Passou o tempo "a tomar notas” e construiu uma coleção de pequenos detalhes nos quais conseguiu sempre ver "graça".

Em resposta à questão sobre os limites da comédia, o também radialista, embora considere que dá cada vez menos importância a questões que entende serem pequenas, assume-se um amante do humor “que provoca”, sobre o qual a tendência para as reações hostis tem sido uma realidade cada vez mais evidente.

“O humor é uma dimensão paralela. Se nos levássemos menos a sério, a vida era melhor e não havia despesas de tribunal”.

Referência nesta área considerada por muitos como uma arte, Nuno Markl garante que, enquanto estiver apto, continuará a contar histórias que chegam a diferentes gerações, com a frescura que a evolução dos tempos exige, como, aliás, tem sido hábito ao longo dos 40 anos de carreira que leva.

Em 2027 chega ao grande ecrã o filme d’ “O Homem que Mordeu o Cão”, que inicia filmagens já no próximo dia 12 de setembro. As histórias que o público já bem conhece, e na qual se inserem episódios pessoais vividos ao longo da recuperação do humorista, também ganham nova vida, através da interpretação de um “grande elenco”, ainda por revelar.
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