Grande exposição sobre Descobrimentos na Alemanha a pretexto da presidência da UE

O Museu de História Alemã, em Berlim, vai acolher a mais importante exposição sobre os Descobrimentos portugueses jamais apresentada na Alemanha, a inaugurar na terça-feira pela chanceler Angela Merkel e pelo primeiro-ministro português, José Sócrates.

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A mostra, intitulada "Novos Mundos - Neue Welten. Portugal e a Época dos Descobrimentos", é o ponto alto do programa cultural da presidência portuguesa da União Europeia, ao longo deste semestre, e estará patente ao público de 24 de Outubro a 10 de Fevereiro de 2008, na Ala Pei do prestigiado museu, projectada pelo famoso arquitecto chinês Ieoh Ming Pei.

Distribuída por várias secções temáticas, a exposição terá quase 400 peças de arte, instrumentos náuticos, documentos e outros objectos de valor histórico, numa área de 1.100 metros quadrados.

"A História portuguesa do Século XVI ao Século XVII, em que estará centrada a exposição, não é apenas história portuguesa, é História mundial, e faz todo o sentido apresentá-la em Berlim", disse à Lusa o curador da exposição, Michael Kraus.

O historiador sublinhou que a história dos Descobrimentos Portugueses "tem sido muito pouco abordada" na Alemanha, onde as exposições sobre o tema foram até agora quase exclusivamente dedicadas à Descoberta da América, ao Imperador Carlos Magno ou a Cristovão Colombo, por exemplo.

"Somos um museu de história alemã, mas no contexto europeu, e a presidência portuguesa da UE foi um óptimo pretexto para avançarmos com esta exposição agora, sem o risco de nos virem perguntar porquê", ironizou Kraus.

Na opinião do mesmo responsável, a mostra em Berlim "vai ser para todos os gostos", porque o público poderá apreciar magníficos objectos de arte, tesouros do Século XVI, trabalhos em marfim, em madrepérola, ou peças talhadas em madeira.

Simultaneamente haverá na exposição documentos históricos de importância mundial, como o Diário da primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1498, ou o Tratado de Tordesilhas, no qual se traçou um meridiano para estabelecer a partilha do mundo a oriente e a ocidente entre Portugal e Espanha, a 07 de Junho de 1494.

Será também exposta a Bula "Romanus Pontifex", em que o Papa Nicolau V reconhece a Portugal a posse exclusiva das terras descobertas desde a era do Infante D. Henrique, O Navegador.

"O Tratado de Tordesilhas é referido em todos os livros escolares do mundo, e aqui teremos o original ratificado por Portugal", adiantou Michael Kraus.

"O tema que escolhemos é propício à apresentação de peças de arte extraordinárias, que num outro enfoque não seria possível seleccionar. A exposição é também interessante porque diz respeito a todos nós, uma vez que, geograficamente, abrange quase o mundo inteiro", disse ainda o curador germânico.

Um terço dos objectos expostos são oriundos de museus, bibliotecas, outras instituições e coleccionadores particulares portugueses, e os restantes dois terços de outros países europeus, sobretudo a Alemanha, mas também a França, Holanda, a Espanha, a Áustria e Reino Unido, e uma peça de um museu de Nova Iorque.

"Há de facto uma grande contribuição alemã para a exposição, sobretudo de objectos que estiveram em tempos na posse de casas reais, mas também porque os Humanistas alemães do Século XVI se interessaram pelos Descobrimentos", recordou Kraus, vincando ainda que a mostra que organizou é "um olhar alemão, autónomo sobre a história portuguesa, embora com uma grande ajuda de Portugal".

Assim, na Sala de Cartografia e Náutica, poder-se-á ver uma reprodução do primeiro Globo Terrestre, concebido por Martin Behaim, em 1492, em Nuremberga, em 1492, ainda sem referência à América.

Simultaneamente relembra-se, na Sala "Novos Mundos, Velhos Impérios", através da arte de civilizações como a China, a Índia ou o Japão, que a história mundial não começa na Europa, porque noutros continentes já havia um desenvolvimento autónomo, já existiam civilizações grandiosas à data dos Descobrimentos Portugueses.

"Além disso, não ocultamos que os Descobrimentos não foram apenas um encontro pacífico entre povos, que houve conflitos. Mas no essencial trata-se de despertar o interesse pela História e de fascinar as pessoas com a História", explicou Michael Kraus.

O historiador alemão não hesita em considerar os Descobrimentos Portugueses "uma forma de globalização", sobretudo porque Portugal não pretendia descobrir novos países mas sim abrir novas rotas comerciais, e pelo impacto que a epopeia lusa viria a ter no mundo.

"De repente, descobriu-se que se podia navegar entre o Oceano Índico e o Oceano Atlântico, ou ir com Fernão de Magalhães do Atlântico até ao Pacífico, e isso é uma forma de globalização, uma viragem revolucionária, porque a quantidade e a velocidade com que as ideias, as pessoas e as mercadorias passaram a circular pelo globo aumentou dramaticamente", disse Kraus.

A Exposição termina no Século XVII, mas há ainda uma curta sequência intitulada O Mundo Lusitano, em que se mostram os reflexos que a História continua a ter sobre o mundo actual, cinco sécuilos depois de iniciados os Descobrimentos.

Assim, à saída e no catálogo há um mapa-mundi que revela onde ainda se fala português e se faz uma cronologia da descolonização portuguesa, que só ficou concluída em 1999, em Macau.

"O objectivo é mostrar como o desenvolvimento iniciado no Século XV perdurou através dos tempos, e ainda hoje nos influencia, a nós e às pessoas de vivem muito regiões longínquas", concluiu o historiador alemão.

Michale Kraus estudou Etnologia, e inicialmnte interessou-se, sobretudo, pelas culturas índias da América do Sul. Mais tarde, porém, dedicou-se à História dos Descobrimentos, e das relações entre Portugal e o Brasil.

Quando a exposição "Novos Mundos - Neue Welten", que preparou durante quase dois anos, já estiver a correr sobre rodas, tenciona tirar uma semana de férias "para repousar" na Ilha da Madeira.

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