Grão-Mestre da Maçonaria diz que esta é acusada injustamente de ter assassinado o Rei
Lisboa, 28 Jan (Lusa) - A Maçonaria Portuguesa é "injustamente acusada" da autoria ou de ter planeado o regicídio, cujo centenário se assinala sexta-feira, disse à Lusa o seu grão-mestre, o historiador António Reis.
"É completamente falso e está historicamente comprovado que não foi a Maçonaria que mandou matar o Rei", sublinhou António Reis.
Para o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) "há uma certa tendência por parte de gente mal informada e por vezes mal intencionada, em tornar a Maçonaria o bode expiatório de todos os atentados e de todas as desgraças que aconteceram".
A "discrição" desta "ordem iniciática" tornaram-na "bode expiatório das monarquias absolutas, da igreja católica e das ditaduras comunistas e fascistas", explicou Reis.
Reportando-se a 1908, António Reis disse: "Confunde-se Maçonaria com Carbonária e relativamente a esta é falso que tenha sido a sua Alta Venda [direcção máxima] que decidiu o regicídio", explicou.
Segundo Reis, "está historicamente comprovado que o regicídio resultou de uma decisão de uma organização que teve à sua cabeça o sector operacional da Carbonária, uma unidade que agiu à revelia da Alta Venda, chamada Coruja e em conjugação com os dissidentes do Partido Progressista, nomeadamente o monárquico José de Alpoim, seu principal impulsionador, e o Visconde da Ribeira Brava".
Alpoim não pertencia à Maçonaria, Ribeira Brava não se sabe, mas ambos eram da Carbonária, disse o chefe máximo do GOL.
"Por detrás do regicídio está a Associação do Registo Civil, e apesar de a ela poderem pertencer muitos maçons, a Maçonaria nada tem a ver com o assunto", sublinhou.
Referindo-se a factos, António Reis cita o diário do último Rei de Portugal, D. Manuel II onde se lê: "O que não ponho seriamente em dúvida é a culpa directa da Maçonaria no acto do regicídio. Isto julgo que não".
Também João Franco chamado por D. Carlos para formar Governo, no jantar das bodas de ouro do seu curso de Coimbra onde tinha sido colega de Magalhães Lima, que foi Grão-Mestre da Maçonaria na altura, "afirmou peremptoriamente que este não tinha tido qualquer responsabilidade no atentado".
Após o regicídio, Magalhães de Lima condenou o acto e considerou que tinha sido contraproducente para a estratégia republicana, disse o líder do GOL.
António Reis afirmou que "matar João Franco não corresponde também à verdade, já que o objectivo era efectivamente matar o Rei".
Os carbonários, segundo o historiador, tinham colocado em Lisboa cerca de 18 homens divididos em três brigadas, ao longo do percurso previsto do cortejo real.
"Um grupo na Praça do Comércio, outro em Santos e um terceiro em Alcântara. Do primeiro grupo além de Alfredo Costa e Manuel Buíça, faziam parte Fabrício Lemos, José Maria Nunes, Ximenes, Joaquim Monteiro, Avelino Marques e Domingos Ribeiro", explicou.
Citando o republicano António José de Almeida, num discurso proferido nas Cortes, quatro meses após a morte do Rei e do príncipe herdeiro, António Reis afirmou que `Buíça e Costa foram a crise epiléptica da Nação`, dada a opressão que se sentia da ditadura de João Franco apoiada por D. Carlos e que "estava em via de se construir um poder real forte, com o Parlamento encerrado, com restrições à liberdade de imprensa".
"Já meses antes do regicídio - prosseguiu Reis - o líder do Partido Regenerador, Júlio Vilhena, escreveu que o clima era tal que só podia acabar num crime ou numa revolução, acabou com os dois".
NL.
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