Grupo de realizadores cria Fundação do Cinema Mundial
Um grupo de cineastas de renome internacional, liderado por Martin Scorsese, lançou terça-feira em Cannes a Fundação do Cinema Mundial, para proteger, recuperar e divulgar o património cinematográfico mundial, em especial os filmes "órfãos", abandonados ou esquecidos.
"É urgente", mas agora "somos um grupo internacional de cineastas", disse o realizador Wong Kar Wai, de Hong Kong, um dos participantes na iniciativa, juntamente com o brasileiro Walter Salles, o maliano Suleymanne Cisse, os mexicanos Alfonso Cuarón e Alejandro González Iñárritu, o britânico Stephen Frears e o mauritano Abderrahman Sissako.
Scorsese sublinhou a necessidade de agir com a maior rapidez e eficácia possíveis, em todo o mundo, para que não se perca a memória cinematográfica de cada país, dando um exemplo contundente: "Noventa por cento dos filmes rodados antes de 1950 nos Estados Unidos já não existem".
"[Entretanto,] as coisas mudaram mas é impossível recuperar" o que foi perdido, acrescentou o autor de "Taxi Driver" (1976), filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes.
Para impedir que continuem a registar-se perdas em grande escala em todo o mundo e, em particular, em países como os do continente africano, "onde a existência de uma sétima arte é já quase um milagre", a ideia é que cada cineasta trabalhe no seu país para recuperar o seu património nacional e "adopte" filmes.
"Faz falta tenacidade" por parte dos cineastas, observou Scorsese, acrescentando: "É isso que estou a tentar despertar aqui".
A Fundação do Cinema Mundial (World Cinema Foundation - WCF), organismo sem fins lucrativos, concentrará os seus esforços especialmente nos filmes "órfãos", "caídos no esquecimento" e também naqueles que são impossíveis de ver, por não estarem disponíveis em vídeo ou em DVD e muito menos no circuito comercial, precisou o cineasta norte-americano.
Walter Salles retomou as palavras de um célebre produtor de cinema brasileiro para recordar que um país sem história do cinema "é como uma casa sem espelho".
O problema da conservação de filmes está intimamente relacionado "com o problema da conservação da identidade cultural", frisou.
O cinema é "um instrumento fabuloso para compreendermos as nossas diferenças" e para sabermos "que não somos tão diferentes como nos faz crer a CNN" e outras instâncias, disse o autor de "Diários de Che Guevara".
Martin Scorsese, que se encontra na origem desta iniciativa, salientou que, apesar de a Fundação do Cinema Mundial ter iniciado a sua existência oficial terça-feira, ela conta já com três filmes salvos para as gerações futuras.
Um deles é o brasileiro "Limite", rodado em 1931 por Mário Peixoto, restaurado pela Cinemateca Brasileira, Vídeo Filmes e pelos Arquivos Mário Peixoto, com a participação de Arte, graças ao apoio fornecido por Walter Salles.
As outras duas películas são a marroquina "Transes" (1981), de Ahmed Al-Maanouni, e "La Foret des Pendus" (1964), do romeno Liviu Ciulei.
Suleymanne Cisse explicou que, quando Scorsese entrou em contacto com ele, não hesitou em "travar esse combate".
"Disso depende a nossa sobrevivência, senão em 15 ou 30 anos já não haverá cinema africano", considerou.
Entre as acções possíveis no âmbito da fundação figura a de que as grandes cinematecas e festivais de todo o mundo "adoptem" filmes e procurem os fundos necessários para o seu restauro e distribuição internacional e, eventualmente, exibição nas salas de cinema.
A fundação prevê igualmente "dispor de um circuito formado pelas cinematecas de todo o mundo", onde serão apresentados os filmes restaurados antes de serem divulgados em DVD, indicou Scorsese.
Toda a gente pode participar na tarefa de recuperar a memória histórica da sétima arte, já que, "individualmente", cada cidadão e amante do cinema pode propor pela Internet filmes "adoptáveis".