Gustav Klimt. Retrato desaparecido de Fräulein Lieser pode valer 50 milhões em leilão

O Retrato de Fräulein Lieser esteve desaparecido durante quase 100 anos. A obra de Gustav Klimt foi encontrada numa coleção particular e vai a leilão, em Viena, no mês de abril. Os especialistas estimam que a pintura possa atingir o valor de 50 milhões de euros.

Carla Quirino - RTP /
Leonhard Foeger - Reuters

O Retrato de Fräulein Lieser é uma das últimas obras do pintor austríaco Gustav Klimt. Começou a ser pintado em 1917.

Quando o artista morreu em Viena, em fevereiro de 1918, a pintura estava no seu estúdio com pequenas secções inacabadas. Uma fotografia a preto e branco tirada em 1925 documentou a obra e depois disso desapareceu. Não se conhecia, por isso, as verdadeiras cores da pintura.

A pintura desaparecida reapareceu numa coleção privada. Os atuais proprietários e os descendentes da família Lieser chegaram a um acordo privado relativamente à venda.

O leitão do Retrato de Fräulein Lieser está marcado para 24 de abril, em Viena de Áustria. Os especialistas apontam para que as licitações cheguem aos 50 milhões de euros.

“A redescoberta deste retrato, um dos mais belos do último período criativo de Klimt,com uma qualidade tão excepcional. É um verdadeiro espanto global”, afirma a casa de leilões im Kinsky. 

“Klimt simboliza o modernismo austríaco do fim do século mais do que qualquer outro artista. O seu trabalho, especialmente os retratos de mulheres bem-sucedidas da classe média alta na viragem do século, goza do mais alto reconhecimento mundial”, sublinha a leiloeira austríaca im Kinsky.
O retrato da Lieser
“O pintor escolheu um retrato de três quartos para a representação e mostra a jovem em pose estritamente frontal, próxima ao primeiro plano, sobre um fundo vermelho e indefinido. Uma capa ricamente decorada com flores está pendurada nos ombros”, descreve a casa de leilões.

A menina retratada usa um vestido “verde espuma do mar sob um casaco azul, que apresenta flores coloridas caindo em cascata na frente” explica a leiloeira, em comunicado.

As maçãs do rosto apresentam-se rosadas e o cabelo encaracolado. A face é pintada “com traços precisos de maneira sensível e naturalista”. O resto da obra “reflete a pincelada livre e aberta do estilo tardio de Klimt”, acrescenta a descrição.


As dimensões da pintura são de 80cm e 1,40 metros| Leiloeira im Kinsky via EPA

As investigações dos historiadores apontam para que o retrato seja provavelmente da “filha de uma família judaica rica que se integrou na alta sociedade vienense”.

O magnata industrial Adolf Lieser contratou Klimt para pintar seu retrato da filha quando tinha 18 anos. Haverá a probabilidade de ser Margarethe Constance Lieser, argumentam os especialistas.

Outra teoria aponta para a possibilidade de ser uma das sobrinhas do milionário. Numa investigação desenvolvida pela casa de leilões revela que a cunhada, Lilly Lieser, também teria contratado Klimt para pintar uma das suas duas filhas, Annie e Helene.

Sem certezas de qual das meninas Lieser está pintada, sabe-se no entanto que uma dessas jovens teria visitado o estúdio do artista em Hietzing nove vezes, na primavera de 1917, onde Klimt criou mais de 25 estudos preliminares da modelo. A família Lieser recebeu a obra após a morte do pintor, e provavelmente faria parte de uma exposição quando a fotografia foi tirada em 1925.
Reconstituir os 100 anos da Fräulein desaparecida
De acordo com a casa de leilões, “o destino exato da pintura depois de 1925 não é claro. O que se sabe é que foi adquirido por um antecessor legal do expedidor na década de 1960 e passou para o atual proprietário através de três heranças sucessivas”, citada na Smithsonian Magazine.

Claudia Mörth-Gasser, diretora e especialista em Arte Moderna da im Kinsky, questiona-se sobre o paradeiro do retrato durante a II Guerra Mundial e perante a possibilidade de os nazis terem apreendido a pintura argumenta: “Verificámos todos os arquivos e não encontrámos nenhuma evidência de que a pintura tenha sido exportada para fora da Áustria, confiscada ou saqueada”.

A pintura estava descrita como perdida em todos os catálogos raisonnés (listas abrangentes do trabalho de Klimt). Entendia-se que “perdido” significaria provavelmente destruído ou queimado durante a guerra. "Não era de se esperar que a pintura reaparecesse" afima a administração da casa de leilões.


Retrato de Fräulein Lieser | Leonhard Foeger - Reuters

Os atuais proprietários - que são cidadãos austríacos mas não quiseram ser identificados -, contactaram a casa de leilões em 2022, segundo o Washington Post.

Entretanto, juntamente com os descendentes da família Lieser, concertaram um acordo privado relativamente à venda da pintura. A casa de leilões reporta que esta decisão foi tomada “segundo os Princípios de Washington de 1998”, um acordo internacional que incumbe as nações participantes de devolver as obras de arte confiscadas durante o III Reich aos proprietários legítimos.

Como “não temos provas de que a pintura tenha sido saqueada no intervalo de tempo entre 1938 e 1945, conseguimos um acordo entre o atual proprietário e todos os descendentes da família Lieser", acrescentou à CNN Mörth-Gasser. Os herdeiros receberão uma parte dos lucros do leilão.

Gustav Klimt nasceu em 1862. Foi um dos membros fundadores do grupo da Secessão de Viena - um movimento de reação contra o conservadorismo académico. Destacou-se com um estilo simbólico e decorativo, composto por mosaicos, cores quentes e motivos florais. O Beijo, uma pintura a óleo sobre tela datada de 1907-1908, será uma das obras mais conhecidas de Klimt.

Os retratos de mulheres feitos por Klimt “raramente são disponibilizados em leilões”, afirma o comunicado de imprensa da leiloeira. E remata: “Há décadas que uma pintura de tal raridade, significado artístico e valor não estava disponível no mercado de arte da Europa Central”.

Depois de quase 100 anos desaparecido, o Retrato de Fräulein Lieser prepara-se para viajar entre exposições na Suíça, Alemanha, Grã-Bretanha e Hong Kong. 

No final de abril, depois de arrematada, a jovem senhora de Klimt terá nova casa.
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