"Haverá Sangue" favorito ao Urso de Ouro do Festival de Berlim, mas pode haver surpresas
Berlim, 15 Fev (Lusa) - O filme "There Will Be Blood" ("Haverá Sangue"), sobre um ambicioso magnata do petróleo, encabeça a lista dos favoritos ao Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim, no sábado, mas não se exclui uma surpresa.
O filme do realizador norte-americano Paul Thomas Anderson, com um fenomenal desempenho de Daniel Day-Lewis no principal papel, já foi nomeado para oito Óscares da Academia de Hollywood, incluindo o de melhor filme, cujos vencedores serão conhecidos a 24 de Fevereiro.
Paul Thomas Anderson é já um velho conhecido da Berlinale, onde ganhou o Urso de Ouro com "Magnólia", em 2000, e a avaliar pela forma como foi recebido pelo público e pela crítica na capital alemã, parte de facto à frente na "caça" ao urso.
No entanto, segundo alguns especialistas, "Haverá Sangue" é um "peso-pesado" a competir este ano com "pesos-leves", e deveria ter sido exibido apenas extra-concurso, como é habitual em obras já consagradas antes de chegarem ao festival.
"Haverá Sangue", baseado num romance escrito em 1927 pelo escritor socialista norte-americano Upton Sinclair, "Petroleum", revela os primórdios do capitalismo norte-americano e o papel da cobiça, da concorrência, da tenacidade, da crueldade, do pioneirismo e do fanatismo religioso numa sociedade emergente que se tornou a maior potência mundial.
Dos outros 21 filmes da competição, além de "Haverá Sangue", só "Kabei", do japonês Yoji Yamada, um drama familiar durante a guerra entre o Japão e os Estados Unidos da América, na II Guerra Mundial, e "Lake Tahoe", do mexicano Ferrnando Eimbcke, sobre um jovem de 16 anos confrontado com a tristeza e os segredos da vida reúnem também as preferências do público e da crítica em Berlim.
"Kirchblueten" (Flor de Cerejeira), da consagrada realizadora alemã Dorris Doerrie, que relata os últimos dias e desejos um casal de meia-idade em que o marido tem uma doença incurável, devia fazer as honras da casa, mas não chegou a entusiasmar.
Nota positiva nos barómetros da crítica tiveram ainda o filme chinês "Zuo You", ("Cremos em Deus"), de Wang Xiaoshuai, psico-drama sobre uma criança com leucemia, e o filme iraniano "The Song of Sparrows", de Majid Majidi, sobre um pai de família dividido entre a vida de cidade e do campo.
Os conhecedores deste festival sublinham, no entanto, a proverbial tendência do júri para atribuir os cobiçados Urso de Ouro e Ursos de Prata a filmes de forte significado político, que poderá mais uma vez provocar uma surpresa.
O facto de o presidente do júri deste ano ser o realizador franco-grego Constantin Costa-Gavras, que rodou o célebre "Z" e outras obras de fundo primordialmente político, jogam a fazer desta tese.
Mesmo assim, poucos acreditam que o vencedor deste ano possa ser "Standard Operation Procedure", de Errol Morris, o primeiro documentário em competição nos 58 anos que o festival já leva de existência, em que se conta a história das sevícias contra prisioneiros na prisão militar norte-americana de Abu-Ghraib, no Iraque.
A novidade do filme - muitas imagens são as que já correram mundo e chocaram a opinião pública - consiste em pôr a falar diante da câmara os "GI" que maltrataram os prisioneiros, vestidos à civil, e todos, sem excepção, a desculpar o seu comportamento e a alegar que só cumpriram ordens, o que é de facto um bom documento histórico, mas sem envergadura cénica para ganhar um grande festival de cinema.
Na lista das grandes desilusões da competição da Berlinale 2008 constam "Elegy", da espanhola Isabel Coixet, com um Ben Kinsley apaixonado por uma mulher 30 anos mais nova, a deslumbrante Penélope Cruz, ou "Júlia", do francês Erik Zonca, em que Tilda Swinton é uma alcoólica que perde gradualmente o controlo sobre a sua vida.
Também "Tropa de Élite", único filme em português da competição, do brasileiro José Padilha, um fresco impressionante da violência nas favelas do Rio entre os "gangs" da droga e a polícia, que pretendia ser uma crítica aos excessos de repressão militarista, mas descambou no culto do "herói" policial, ficou longe de corresponder às expectativas.