Héctor Abad Faciolince conta história da família e do pai assassinado
Lisboa, 25 Fev (Lusa) - "Todas as famílias felizes são iguais", escreveu Tolstoi no romance "Anna Karenina", mas o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince discorda e decidiu contar a história de uma família feliz, a sua, até ao assassínio do pai.
O livro, editado pela Quetzal, chama-se "Já Somos o Esquecimento que Seremos", primeiro verso de um soneto que Héctor Abad encontrou no bolso do pai, médico e activista dos direitos humanos morto numa rua de Medellín pelos paramilitares colombianos em 1987, e o escritor veio a Portugal apresentá-lo.
"Como género, é muito difícil de definir, porque não é um romance, mas eu quis escrevê-lo com as técnicas do romance, isto é, uma narração, com diálogos, completa. Não é um livro de memórias, porque não são exactamente as minhas memórias, mas as de um menino, e de um adulto também, que recorda o seu pai. Poderia ser uma biografia, porque é a história do meu pai, mas não é, porque é uma história muito íntima, precisamente porque é contada de um ponto de vista muito interior, muito familiar", disse Héctor Abad Faciolince em entrevista à Lusa.
A história, o autor descreve-a como sendo a "de uma família de classe média, de uma cidade intermédia, de um país intermédio que está a meio do continente americano: Medellín, Colômbia, norte da América do Sul".
"É a história de um médico, de um professor de medicina, e das suas filhas e do seu filho, e da sua mulher e dos seus pais, meus avós. É uma história familiar de um grupo aparentemente feliz e tranquilo que quer levar uma vida feliz e tranquila, mas que se encontra num país profundamente difícil e violento, como é a Colômbia", enquadrou.
Além de uma tentativa de preservar a memória de um homem bom, Héctor Abad afirma ter escrito este livro para encerrar um capítulo da sua vida e exorcizar alguns fantasmas de revolta contra o regime que assassinou o seu pai.
"O processo [de escrita desta obra] foi muito difícil, porque apesar de durante muitos anos ter tentado contar esta história, sempre me saía mal. Saía-me sentimental, comovia-me muito e depois, como estava muito comovido, não conseguia continuar. Borges dizia que não se deve escrever sobre o amor quando se está apaixonado, mas quando se tem a memória do amor. Da mesma forma, não se pode escrever sobre a violência e a injustiça quando se tem muita raiva, é melhor escrever quando já se tem a ferida fechada, já com a cicatriz, com a recordação da injustiça", defendeu.
O escritor, que tem publicados em Portugal dois outros títulos - "Receitas de Amor para Mulheres Tristes" e "Fragmentos de Amor Furtivo" -- sublinhou, no entanto, que este não é um livro centrado no assassínio do seu pai, mas "no relato de uma vida amorosa e corrente".
"É mais o testemunho que eu quis escrever para os meus filhos, para que conhecessem o seu avô, que nunca conheceram, e a carta que eu escrevi a um pai que me fez muito bem. Embora eu saiba que ele nunca poderá ler este livro, há um consolo em dizer certas coisas", observou.
Para Héctor Abad Faciolince, a literatura, tal como as outras artes, tem "um poder muito estranho": pode ajudar a fechar feridas.