Heterónimo Ricardo Reis, um dos mais difíceis de traduzir para o francês - Patrick Quillier

Lisboa, 26 Nov (Lusa) - Um dos três heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, criou "uma poesia um bocadinho monstruosa" que é "muito difícil de traduzir" para o francês, admitiu hoje o tradutor Patrick Quillier.

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Responsável pela tradução da obra poética de Fernando Pessoa na colecção francesa Pléiade - com 1600 páginas de poemas e 500 de anotações - Patrick Quillier fez hoje uma intervenção durante o congresso internacional dedicado ao poeta, que está a decorrer até dia 28 de Novembro nas instalações do Turismo de Lisboa, promovido pela Casa Fernando Pessoa.

"Para construir a poesia de Ricardo Reis, Pessoa foi buscar algumas coisas ao poeta latino Horácio e à tradição da poesia portuguesa", indicou o tradutor, acrescentando um comentário que provocou risos na audiência: "O resultado é uma poesia um bocadinho monstruosa, e um bocadinho complicada na tradução francesa, sobretudo por causa do vocabulário".

Ainda sobre as dificuldades de traduzir o poeta português, nascido há 120 anos e o mais conhecido mundialmente, Patrick Quillier admitiu que "traduzir o heterónimo Alexander Search é ainda mais monstruoso. É um problema".

Alexander Search foi criado em 1899, quando Pessoa era ainda um estudante na África do Sul, onde viveu um período acompanhado pela mãe e o padrasto, que era diplomata.

"Álvaro de Campos também não é fácil porque é preciso ir buscar o ritmo em francês, e, por exemplo, o uso dos acentos tónicos é diferente", apontou ainda o tradutor e professor de literatura geral comparada, que, além de Pessoa, traduziu autores portugueses como António Ramos Rosa, Pedro Tamen, Herberto Helder, António Franco Alexandre e Eugénio de Andrade.

Para contornar estas dificuldades, Patrick Quillier tenta "chegar a um compromisso para dar uma leitura mais sossegada" ao público.

Respondendo a questões da assistência sobre o interesse, em França, pela obra pessoana fora da literatura, o tradutor revelou que existe no meio teatral "um fascínio pelo universo de heterónimos de Pessoa", que tem levado aos palcos, entre outras, adaptações de "O Banqueiro Anarquista".

Também na cena musical os franceses têm mostrado interesse em usar a poesia pessoana. Patrick Quillier, que também é músico, referiu que compôs uma cantata intitulada "Além da Dor", com base na obra "A Mensagem" de Fernando Pessoa, com cada heterónimo representado por uma voz específica (um barítono, um soprano...).

Esta cantata foi premiada no Concurso de Composição Musical "Fernando Pessoa", organizado pelo Ministério da Cultura português em 1985.

AG.

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