História. Biógrafo de Filipe I afirma que o Rei nunca se deu grande importância e até aboliu o tratamenmto majestático
Lisboa, 10 Mar (Lusa) - Filipe II de Espanha, que em 1580 tomou a Coroa de Portugal, nunca se deu a si próprio importância e até aboliu o tratamento por "majestade", diz o historiador Henry Kamen, autor de uma nova biografia do monarca.
Numa entrevista à Agência Lusa por ocasião do lançamento da tradução portuguesa daquela biografia, Henry Kamen salientou que Filipe II "foi senhor do maior Império no mundo, mas nunca se deu qualquer importância e ao contrário dos reis seus contemporâneos, nunca pensou em si em termos de grandeza".
Professor do Conselho Superior de Investigação Científica, em Barcelona, Henry Kamen escreveu uma biografia do monarca que mais tempo reinou na Península, cerca de 50 anos, a partir dos seus papéis privados.
"Esta é a primeira biografia que e baseia na sua correspondência privada. Ninguém anteriormente assinalou os documentos que eu descobri em Genebra, Roma e Londres, e em toda a Espanha", disse à Lusa.
Das fontes consultadas não constam os arquivos portugueses "pois a principal documentação encontra-se em Espanha, mesmo no tocante á governação de Portugal", sustentou.
O propósito de Henry Kamen foi "olhar para dentro do Rei e não para as consequências da sua política, conhecer antes de mais a sua personalidade".
"Estudei primeiro os papéis do Rei, de modo a perceber como é que ele pensava, quais os seus princípios, no que acreditava, e como era a sua vida privada, a partir da sua correspondência", explicou.
A obra, intitulada "Filipe I. O Rei que uniu Portugal e Espanha", é editada esta semana em Portugal pela Esfera dos Livros.
"Filipe II de Espanha não tinha interesse em Portugal, mas achava-se português, era filho de uma portuguesa [a infanta Isabel de Portugal], fora educado por uma ama portuguesa e, além do espanhol, o português era a única língua que falava bem, e um pouco de catalão", explicou.
Curiosamente, no ano anterior a ser coroado Rei de Portugal, nas Cortes de Tomar, por unanimidade, em 1581, "aboliu o tratamento por majestade".
"Aboliu o Vossa Majestade e passou a querer ser tratado por Senhor, foi também uma forma de minimizar a importância da monarquia", explicou.
"Filipe era um homem verdadeiramente simples, vestia-se com roupas normais e nunca foi pintado montado num cavalo ou com artefacto e luxos, antes de uma forma simples", declarou.
O seu livro, por outro lado, procura "dar um retrato equilibrado do Rei. Umas vezes parece mais favorável e outras não, mas é um estudo global de Filipe".
"Foi um Rei que "nunca se deu importância e achava que poder só tinha Deus. O Rei, entendia Filipe, era antes quem mais deveres tinha", sustentou.
Quando está a morrer, em grande agonia, com várias postulas infecciosas e defecando sem poder ser limpo, em San Lorenzo del Escorial (arredores de Madrid), mandou chamar o Príncipe herdeiro para que assistisse "de modo a ver como tudo acaba. Foi uma lição de humildade".
O historiador insiste na "humildade" do Rei "que nunca se via como senhor de uma grande potência e que sempre procurou a paz".
A entrada em Portugal "foi forçada pelas circunstâncias internacionais" e até apelou ao Duque de Alba, que comandou as tropas "para tratar os portugueses com gentileza" ao que este ripostou que o Rei "deveria estar a brincar pois todos os dias morreriam portugueses".
Tomar a Coroa de Portugal, após o desastre de Alcácer-Quibir, "foi um modo de evitar e ocupação por França ou Inglaterra principais adversárias de Espanha, além do poder crescente dos protestantes na América do Norte, uma ameaça para as católicas colónias espanholas e o Brasil, ao Sul".
"É de facto uma conjuntura política, nomeadamente o conflito religioso, que o leva a ir para a guerra", sublinhou.
Devoto católico - morreu com uma cruz na mão e noutra uma relíquia santa - "defendeu a Fé por todo o mundo e procurou sempre evitar o avanço dos protestantes".
Referindo-se á personalidade do Rei, Henry Kamen considera que há "um Filipe peninsular, nos primeiros tempos e a partir de 1548 reflecte uma maior mundivivência, depois da viagem aos Países Baixos em que passa por Itália e Alemanha".
Na primeira fase "tudo era ibérico, da arquitectura às mulheres", depois das viagens - "e foi o Rei que mais viajou na sua época" - importa ideias e modelos.
Encomendou retratos a Ticiano, procurou seguir os modelos de belos palácios e jardins que viu nos Países Baixos, e contratou arquitectos italianos para construir palácios seus, como o Torreão na frente ribeirinha de Lisboa que o terramoto de 1755 destruiu.
Além destas viagens, Filipe II de Espanha esteve ainda cinco anos em Inglaterra e três em Portugal.
O autor tem outras obras, nomeadamente "El Gran Duque de Alba", editada em 2004. "Filipe I" é a primeira traduzida para português,
NL.
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