História de artista cubana "lilliputiana" é contada em "Chiquita", Prémio Alfaguara 2008
*** Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa ***
Lisboa, 20 Fev (Lusa) - O escritor cubano Antonio Orlando Rodríguez recriou a vida de uma figura real no romance "Chiquita", sobre uma artista cubana "lilliputiana" que caiu no esquecimento, e com ele venceu o Prémio Alfaguara 2008.
"Este romance trata de uma personagem real, uma personagem histórica que existiu verdadeiramente, Espiridiona Cenda, mais conhecida como Chiquita, uma mulher que apenas media 65 centímetros de altura. Ela nasceu em Cuba e enquanto aí viveu, até aos 26 anos, foi uma desconhecida: vivia dentro de casa, muito protegida pela família, nunca ninguém a via. Mas, aos 26 anos, decidiu viver nos Estados Unidos e aí começou outra vida, muito diferente", disse Antonio Orlando Rodríguez, em entrevista à Lusa.
Chiquita "chega decidida a tornar-se uma grande artista, uma bailarina e cantora, e consegue-o! Torna-se uma das artistas mais bem pagas dos vaudevilles, dos circos e das feiras dos Estados Unidos e percorre o mundo", indicou o autor, que veio a Portugal apresentar este seu segundo romance, editado pela QuidNovi, no âmbito da 10ª edição do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d`Escritas, que decorreu até sábado na Póvoa de Varzim.
O romance recria a vida desta personagem que, segundo o escritor, "apesar de ter sido muito popular no século XIX e princípios do século XX, depois caiu no mais profundo esquecimento".
"Foi um trabalho quase detectivesco encontrar informação sobre ela. Por isso, o livro não é uma biografia, é uma recriação da sua vida, eu reinventei a sua vida a partir de alguma informação real", sublinhou.
Uma amiga enviou-lhe um e-mail com a fotografia de Chiquita, e perguntava-lhe: `sabias que existiu uma famosa lilliputiana cubana?`. Ele não sabia e apaixonou-se "por essa personagem tão singular, com uma personalidade tão forte, uma personagem com tanto espírito, com tanta vontade de triunfar, uma mulher pequenina mas muito sedutora, muito enérgica, com um grande magnetismo" e decidiu "que essa era a heroína perfeita para um romance".
Por outro lado - contrapôs - "é uma personagem que percorre uma época muito interessante, o final do século XIX e o início do século XX, um momento histórico com muitas mudanças económicas, políticas, sociais, é uma época muito atraente para qualquer romancista. Então, juntaram-se uma personagem com muitas possibilidades e uma época suculenta".
Para Antonio Orlando Rodríguez, que anteriormente tinha escrito livros de contos, peças de teatro, ensaios e outro romance, escrever "às vezes, é um prazer, às vezes é um tormento".
"Mas sempre nasce do desejo de passar para o papel uma história que não existe e que eu gostaria de ler. Escrevo os livros que eu queria que existissem mas que não existem. Escrevo-os para que existam, para eu poder lê-los e para que possam ser lidos por outros. Escrevo inicialmente pensando em mim mesmo, para que as histórias me agradem a mim, me agarrem a mim", revelou.
"Nunca penso, enquanto trabalho, no leitor, nunca penso no mercado, nas editoras, quero que o livro seja satisfatório para mim. E então, penso que talvez se for autêntico, se trabalhar para mim, outras pessoas poderão também gostar [do que escrevo]", acrescentou.
Quanto ao Prémio Alfaguara, Orlando Rodríguez salientou que "é um dos prémios mais importantes da língua espanhola e, por isso, ganhá-lo é uma honra, uma grande honra, para qualquer escritor, sobretudo se se tiver em conta que todos os anos participam nesse certame mais de 500 romances de todos os países hispânicos".
"No meu caso - precisou - foi, além de uma honra, uma grande alegria, porque eu sou um escritor cubano, latino, que vive nos Estados Unidos e foi a primeira vez que um hispânico residente nos Estados Unidos ganhou este prémio. Então, foi uma surpresa e uma grande satisfação".
"Mas creio que o grande prémio que há por detrás do prémio é a possibilidade de o livro chegar com muita força a Espanha, Estados Unidos e todos os países da América Latina. É que os mecanismos de circulação da literatura são às vezes muito complicados e a possibilidade de o livro circular por todo o mundo hispânico é um privilégio", admitiu.
E também o é - prosseguiu - "a possibilidade de viajar para todos esses países e de conversar com os leitores, receber as suas impressões sobre `Chiquita`... tudo isso, realmente, é o grande prémio".
O livro não está editado em Cuba, porque a Alfaguara não tem sucursal em Cuba e os livros da editora não chegam lá, "como quase nenhum livro estrangeiro chega", mas "os livros encontram os seus próprios caminhos para chegar aos seus leitores naturais", considerou.
"`Chiquita` viajou para Cuba na mala de algum viajante, de um turista, e assim chegaram livros e as pessoas lêem-nos, escrevem-me e dizem-me: `há uma fila de 20 pessoas esperando para ler o teu livro` e isso é muito emocionante. É reconfortante saber que, apesar de não se vender ali, o livro chega aos seus leitores e que os meus compatriotas querem ler o que escreve um autor cubano que vive fora da ilha", referiu.
Exilado nos Estados Unidos há 18 anos, Antonio Orlando Rodríguez definiu assim a sua relação com Cuba: "Uma coisa é a minha relação com o Estado cubano, que é uma relação fria e distante, e outra coisa é a relação com o meu país, com a minha pátria, com a minha cultura, que é uma relação muito afectuosa, profunda, e eu aspiro a que algum dia, no meu país, se produzam mudanças para que eu não tenha de fazer esta distinção entre o Estado cubano e a minha pátria cubana e que tudo isso seja uma só coisa para mim".
"Eu, há 18 anos, fui-me embora de Cuba. Quando abandonei o país, tinha uma carreira literária feita, tinha ganho muitos prémios literários, tinha publicado muitos livros. Fui-me embora, porque estava farto dessa ditadura e fui-me sobretudo buscando liberdade criativa, e para ser adulto, porque creio que numa ditadura em que pensam por nós, tomam decisões por nós, não podemos escolher, nunca se é adulto. Pode-se chegar aos 80 anos e continuar a ser, eternamente, uma criança", argumentou.
O escritor defende que "Cuba precisa de uma mudança substancial, que não sejam só reformas cosméticas, são necessárias mudanças importantes relacionadas com o exercício da liberdade e com os direitos humanos da população", mas não acredita que tal mudança ocorra em breve.
"Eu não sou optimista. Enquanto o Governo estiver nas mãos das mesmas pessoas que há meio século, não vejo por que é que elas hão-de mudar a sua maneira de governar, não acredito que haja uma mudança radical", opinou.