"Horas do Diabo" revelam Fernando Pessoa e O Bando na Noruega
Fernando Pessoa e seus heterónimos são o tema de "Horas do Diabo", co-produção do teatro O Bando e do Nacional D. Maria II, a apresentar dias 10 e 11 de Março no Teatro Vart, em Aalesund, Noruega.
A lendária Salomé, Maria e o Diabo são as personagens centrais da peça que junta três actores em palco - um polaco, que representa o Judaísmo, uma curda de origem turca, que representa o Islamismo, e uma portuguesa, representando o Catolicismo - e que se desloca à Noruega no âmbito da rede EUnetART (European Network of Art Organisations for Children and Young People), da qual faz parte o Teatro O Bando, como disse fonte do teatro à agência Lusa.
Baseada em textos pessoanos e seus heterónimos - "A Hora do Diabo", "Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro", "O privilégio dos Caminhos" e "Pessoa por Conhecer", montados pela catedrática Teresa Rita Lopes -, "Horas do Diabo" visa mostrar que, apesar das diferenças, as três religiões têm pontos que se entrecruzam, disse Teresa Rita Lopes à Lusa na altura da estreia da peça, na Sala Garrett, do Nacional D. Maria II, em Lisboa.
"Todas as religiões são verdadeiras por mais opostas que pareçam entre si. São símbolos diferentes da mesma realidade, são como a mesma frase dita em várias línguas", frase de Pessoa em "A Hora do Diabo" foi o ponto de partida da peça, disse João Brites à Lusa.
Mostrar aos homens "mobilizados pelos seus ódios cegos que as religiões nada mais fazem do que buscar uma verdade que é, afinal, sempre a mesma" é, nas palavras de João Brites, outro dos objectivos da peça.
"Ateu convicto e confesso", ressalvou que a peça lembra as "atrocidades" que se cometem em nome "das diferentes religiões", mas também a sua "dimensão altruísta".
Acreditar que "o entendimento entre as várias religiões é possível" é, acrescentou o encenador, o objectivo primeiro da peça, em que judeu, católica e islâmica se identificam apenas através da colocação de umas pintas vermelhas e negras no rosto e nos diferentes locais onde estas são colocadas.
"Bendita seja eu por tudo quanto não sei", é a frase mais ouvida na peça, que revela ainda o lado religioso de Fernando pessoa e a sua intenção de criar "uma religião em que não houvesse Deus".
Interpretada por Dilek Serindag, Jacek Milczanowski e Maria Gil, "Horas do Diabo" tem oralidade de Teresa Lima, corporalidade de Luc Aprea, cenografia e figurino de Clara Bento.
Carrousel Theater An Der Parkaue (Berlim, Alemanha), Teatr Mumerus (Cracóvia, Polónia) e Theater An Der Sihl (Zurique, Suíça) foram outros dos teatros que co-produziram "Horas do Diabo", que já esteve em cena no Teatro Carlos Alberto (Porto) e na sede de O Bando, em Palmela (Setúbal).