"Identificação de um país" de José Mattoso volta a ser editado 30 anos depois

Redação, 16 abr (Lusa) -- A obra "Identificação de um país -- Ensaio geral sobre as origens de Portugal 1096-1325" ", de José Mattoso, publicada pela primeira vez há 30 anos, é editada na sexta-feira, num volume único, pelo Círculo de Leitores.

Lusa /

O livro foi "bem recebido pelo público", quando da sua primeira edição, "quer como obra oportuna para repensar o país e o seu futuro, quer como investigação de um problema típico da historiografia europeia dessa época", escreve Mattoso, no prefácio.

A obra "procura averiguar como é que a Nação portuguesa surgiu e como evoluiu durante duzentos anos", escreve o autor.

"Não pretendo descrever o que aconteceu a Portugal ou em Portugal, por meio de uma narrativa sequencial inscrita no tempo -- ou seja contar a História de Portugal -, mas explicar como evoluiu a Nação, como Nação, durante os seus primeiros tempos", esclarece o historiador.

A obra foi editada pela primeira vez em 1985, em dois volumes, com a chancela da Editorial Estampa, e tem sido sucessivamente revista pelo autor. Da primeira para a segunda edição, realça Mattoso, foram feitas "algumas correções e aditamentos", tendo-se tornado num "enorme volume de investigação especializado sobre os temas nela tratados".

O autor afirma que a obra, quando foi escrita, procurou corresponder à nova vertente da historiografia, da École des Annales, constituída por autores como Georges Dubym Fernand Braudel e Jacques le Goff, que tinha como preocupação central "a necessidade de estudar as `estruturas`", e que por isso criou "a noção de `tempo longo` e procurava nas ciências sociais os conceitos que ajudavam a compreender as transformações históricas mais profundas do mundo ocidental".

Atualmente, escreve o historiador, "a produção historiográfica aumentou rapidamente, diversificou-se e internacionalizou-se", as conceções da "Nova História", "foram postas em dúvida [e] a escola dos Annales perdeu o seu prestígio".

"O pós modernismo demoliu teorias e convicções, mas não construiu nada de novo", enfatiza o historiador, que reconhece que este seu livro "foi-se tornando, para o bem e para o mal, cada vez mais datado".

"Não sei se é eficaz o método que aditei de procurar nos vestígios do passado o que de alguma maneira ainda é presente, e que por isso nos interpela", afirma José Mattoso, defendo que este método "permite de facto, encontrar nas coisas e nas palavras os indícios concretos de um sentimento coletivo e de um vínculo comum, que surge como suportado por uma instância política".

Para José Mattoso, que foi o primeiro laureado com o Prémio Pessoa, em 1987, "pouco importa que a obra esteja ou não `datada`". "A diferença não está na datação, mas no sentido, e o sentido não está nas coisas, mas nos olhos de quem o procura".

José Mattoso, de 81 anos, tem dirigido várias obras, nomeadamente a "História de Portugal", publicada 1993 e 1994, a "História da vida privada em Portugal" (2010/2011) e "Património de origem portuguesa no mundo" (2010), todas publicadas pelo Círculo de Leitores.

É autor ainda, entre outras, de uma biografia do rei D. Afonso Henriques, publicada em 2006, de "Poderes invisíveis -- o imaginário medieval" (2013), da obra "Naquele tempo -- Ensaios de história medieval" (2009) e, com Suzanne Daveau e Duarte Belo, "Portugal -- o sabor da terra" (2010).

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