Indiana Jones portugueses esventram sítios arqueológicos em Trás-os-Montes à caça de tesouros

Bragança, 18 Dez (Lusa) - Indiana Jones à portuguesa escavam os principais sítios arqueológicos de Trás-os-Montes perseguindo hipotéticos tesouros e destruindo, ao mesmo tempo, legados do passado, denunciou hoje á Lusa fonte do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR).

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Segundo o arqueólogo Luís Pereira, neste afã aventureiro, estes autênticos "caçadores de tesouros" munidos de detectores de metais e pás, partem à procura de riqueza em legados antigos deixando, atrás de si, vestígios de destruição que começam a causar muitas preocupações.

O responsável pela extensão, em Trás-os-Montes, do IGESPAR garante já ter encontrado vestígios desta prática que procura falsas riquezas em locais onde o único valor que existe é o testemunho histórico.

Um dos locais mais "atacados" nos últimos tempos é a gruta conhecida como Lorga de Dine, no concelho de Vinhais, no Parque Natural de Montesinho, um dos locais mais representativos do Calcolítico e da Idade do Bronze

As salas e galerias têm sido vandalizadas à procura de tesouros, acredita o arqueólogo.

A Câmara de Vinhais está a desenvolver um projecto de valorização do local, mas a sua protecção é complicada.

Ali habita uma colónia de morcegos protegidos que precisam de sair à noite, o que não permite fechar o acesso.

O comando distrital da GNR de Bragança garantiu à Lusa não ter registado qualquer queixa sobre esta actividade de rapina arqueológica, embora seja do conhecimento geral que algumas pessoas procuram e encontram objectos antigos.

O problema, segundo admitem as autoridades, é que estes sítios e achados arqueológicos são encarados como "propriedade de ninguém".

Mas o arqueólogo Luís Pereira conhece o caso de um caçador de tesouros apanhado em flagrante, em Vila Real, que envolveu um colega e um amigo juiz.

Os dois foram visitar um sítio arqueológico e surpreenderam o larápio, que entregaram às autoridades.

Foi-lhe apreendido o detector de metais e aplicada uma coima, conforme determina a legislação.

Luís Pereira garante ter encontrado vários sítios escavados, no trabalho de levantamento e inventariação do património arqueológico de Trás-os-Montes, que coordena há dez anos.

Ele e outro colega da extensão do IGESPAR, sedeada em Macedo de Cavaleiros, já identificaram 3600 sítios em toda a região, e mais de dois mil já estão devidamente identificados, caracterizados e disponíveis ao público, na Internet.

A região transmontana representa mais de 10 por cento dos cerca de 30 mil sítios registados neste inventário em todo o país.

"É uma das regiões mais ricas", garante o arqueólogo, que tem contado com o apoio de várias fontes para este trabalho, facilitado no distrito de Bragança pela obra do Abade de Baçal.

O clérigo, um vulto da cultura transmontana, registou todos os achados e vestígios que foi encontrando por todo o Nordeste Transmontano.

Luís Pereira deixa, no entanto, um aviso aos caçadores de tesouros: "não vale a pena escavar e vandalizar porque tudo quanto possam encontrar nestes locais é lixo".

Mas não um lixo qualquer. Não tem valor económico, mas faz os arqueólogos "dar pulos de alegria" por conter vestígios que permitem saber do modo de vida, hábitos e outros factores das sociedades em cada época.

Na região predominam os povoados abandonados ao longo da história pelas mutações demográficas em que as populações deixavam para trás aquilo que não queriam.

O trabalho que o arqueólogo está a coordenar nunca estará concluído já que estão sempre a aparecer novos achados.

Os estudos prévios e de impactos de grandes obras, como barragens, muito têm contribuído para estas descobertas, a mais recente no vale do rio Sabor.

Os estudos para a construção da barragem, que deverá começar no próximo ano, já detectaram mais de cem sítios arqueológicos no troço do vale do rio que será afectado pela albufeira.

Muitos vão ficar submersos o que não quer dizer destruídos para o arqueólogo que garante ser esta a forma de os preservar durante alguns séculos, com as necessárias medidas de minimização de impactos.

Arqueologia e barragens ressuscitam sempre a polémica do Côa, mas o arqueólogo considera que, nesse caso, "seria um erro submergir os mais importantes achados da arte rupestre".

As segundas gravuras mais importantes foram encontradas, poucos anos depois, no Alto Sabor, no concelho de Bragança, no lugar do Pousadouro.

Foram estudadas, mas até hoje não mereceram qualquer classificação ou atenção que as retire do local inóspito em que se encontram.

Poucos são os sítios arqueológicos classificados, que na opinião de Luís Pereira, não deixam de ter valor e de poder ser valorizados, nomeadamente pelas autarquias.

Incluí-los em roteiros turísticos é uma hipótese, embora o arqueólogo garanta que, enquanto nada for feito, "se estiverem cheios de mato e escondidos estão preservados".

HFI/JAM.


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