Inéditos de Pessoa e Bolaño e novas vozes marcam apostas das edições Penguin para 2026

Autores internacionais consagrados que se estreiam em Portugal, textos inéditos de Fernando Pessoa e Roberto Bolaño, e novos livros de Afonso Cruz, José Gardeazabal e Patrícia Reis são algumas novidades do grupo Penguin para o primeiro semestre de 2026.

Lusa /

Até junho deste ano, a Penguin Random House Portugal vai lançar quase 400 livros, naquela que é uma grande aposta da editora em usar "beleza contra a barbárie" dos tempos que correm, segundo Clara Capitão, diretora do grupo editorial, que hoje apresentou as novidades, na Casa do Comum, em Lisboa.

Um dos livros em destaque na Alfaguara intitula-se "Tudo na natureza apenas continua", da escritora chinesa Yiyun Li, que se estreia em Portugal, vive nos Estados Unidos há décadas, escreve em inglês e não permite que os seus livros sejam publicados na China.

Autora amplamente premiada, foi finalista do National Book Award com este livro de memórias centrado na sua sobrevivência ao suicídio dos dois filhos (um com 16 anos e outro com 19) com sete anos de intervalo, escrito a partir desse lugar escuro em que mergulhou.

"O verão em que a minha mãe teve olhos verdes" é outra das estreias na mesma chancela, neste caso da escritora moldava de expressão romena Tatiana Tibuleac, romance vencedor em Espanha do Prémio Cálamo 2019, que tem como protagonista um pintor em bloqueio criativo a quem o psiquiatra aconselha a recordar o último verão que passou com a mãe, ainda em criança, e a reviver as emoções que dominaram esse tempo longínquo.

Também em estreia na Alfaguara estará a autora italiana Maria Grazia Calandrone, com o romance "Escrito com sangue na água" sobre a história da sua origem, que só descobriu na idade adulta: Em Roma na década de 1960, um bebé é abandonado num jardim e os pais suicidam-se em conjunto. Esse bebé era a autora e esta é a história das suas raízes, que investigou usando o seu pendor de jornalista.

A Alfaguara vai ainda publicar "Audição", romance finalista do Prémio Booker, de Katie Kitamura, escritora já publicada em Portugal mas que se estreia agora no catálogo da Penguin, e ainda novos livros de Lara Moreno, Alba de Céspedes, Jamaica Kincaid e Leila Slimani - desta última, uma compilação de reflexões literárias, sociais e políticas, escritas ao longo dos tempos e iniciadas após o ataque ao Teatro Bataclan, em 2015.

Patrícia Reis regressa ao romance, com "O lugar da incerteza", estreando-se na Companhia das Letras com esta história sobre a fé e o abismo humano.

Bruna Dantas Lobato é outra autora inédita em Portugal que chega agora ao mercado livreiro nacional com "Horas azuis", uma obra autobiográfica sobre uma jovem brasileira que se muda para os Estados Unidos para estudar literatura e que vai mantendo ligação com a mãe, que ficou no Rio Grande do Sul, através de conversas por computador, iludindo-se à distância.

"Horas azuis" é o seu primeiro romance e foi originalmente escrito em inglês e publicado nos Estados Unidos -- onde foi aclamado pela crítica -- e só depois traduzido para português e publicado no Brasil, já que Bruna Dantas Lobato é tradutora, tendo vencido o National Book Award pela tradução para inglês de "A palavra que resta", de Stênio Gardel.

Outra autora brasileira em estreia no catálogo da Companhia das Letras é Vera Iaconelli, psicanalista e colunista do jornal Folha de São Paulo, que publica "Análise -- Notas do divã", em que se psicanalisa a si mesma, mergulhando na sua complexa história familiar.

A mesma chancela traz de regresso autores como Afonso Cruz e o romance "A cozinheira do ditador", Ana Cláudia Santos, com "Morsa -- Contos de inocência e de violência", José Gardeazabal e "Mulher no espaço", um livro político e social, Madalena Sá Fernandes, com "Sótão", e Manuel Abrantes, que volta a usar a sua formação e experiência como sociólogo para escrever um romance, desta vez "E o teu corpo disse tudo", sobre a questão da imigração em Portugal.

Clarice Lispector, autora de quem a Companhia das Letras começou em 2025 a publicar a obra, chega neste semestre em dose tripla, com "A hora da Estrela", "Laços de família" e "Felicidade clandestina".

A Cavalo de Ferro trouxe como novidade a integração de Roberto Bolaño no seu catálogo, começando com a publicação de dois livros inéditos em Portugal do autor chileno: "Contos completos" e "Um pequeno romance Lúmpen".

Esta decisão editorial prende-se com a aproximação dos 20 anos da publicação de "Os detetives selvagens" e "2666", nos Estados Unidos, acontecimentos que fizeram de Bolaño um fenómeno internacionl e que justifica o relançamento das suas obras, a que a Cavalo de Ferro se juntou, para publicar a integral do autor, com quatro livros previstos para este ano.

A mesma chancela vai lançar "Escola de idiotas", de Sasha Sokolov, considerado um autor fundamental para uma nova geração de escritores russos, traduzido do russo por Nina e Filipe Guerra (1948-2025), uma obra que saiu da Rússia de forma clandestina ainda em manuscrito e foi publicada, nos anos 1970, nos Estados Unidos, tendo conhecido só mais recentemente uma edição russa, devido à carga crítica ao sistema soviético que encerra.

Outra estreia na Cavalo de Ferro é o autor Ken Greenhall, com a publicação do seu primeiro livro, "Elizabeth", editado originalmente nos anos 1970, considerado um herdeiro do gótico norte-americano, e que traça um retrato elegante de um mundo em que o mal é totalmente triunfante, segundo a descrição do The Sunday Times.

A chancela publicará ainda livros de Georges Simenon, "O círculo dos Mahé", de Gunnar Gunnarsson, "Ave negra", de Jon Fosse, "Cenas de uma infância", e de László Krasznahorkai, "O tango de Satanás", primeiro livro do Nobel da Literatura, que lhe valeu o epíteto de "mestre do apocalipse", que já tinha sido editado em Portugal pela Antígona (em 2018), mas que há muito se encontra esgotado.

As grandes novidades da Elsinore são a estreia em Portugal da escritora argentina Gabriela Cabezón Câmara, com o romance "As meninas do laranjal", um fenómeno editorial que valeu à autora três prémios literários, entre os quais o National Book Award 2025; e da escritora espanhola Clara Usón, de quem será publiclado "As feras", um "romance-documento" sobre a História do grupo separatista basco ETA.

De volta ao catálogo estão a argentina Ariana Harwicz, com o romance "Perder o juízo", um "regresso negro e furioso aos clichés do tema maternidade", Édouard Louis, com "Mudar: Método", e a portuguesa Rita Canas Mendes, com o seu segundo romance, "Longitude".

A Penguin Clássicos traz uma das maiores novidades que é a publicação de "Uma História da literatura portuguesa", de Fernando Pessoa, com edição, organização e introdução de Nuno Ribeiro, que publica aqui textos inéditos, dos muitos que ainda há por descobrir na famosa arca de manuscritos do poeta.

Dos vários projetos que o ocupavam, Fernando Pessoa tinha a ideia de escrever uma história da literatura portuguesa, centrada nos principais autores de língua portuguesa dos últimos cinco séculos, cujos textos ganham agora forma nesta coletânea.

A coleção de clássicos vai publicar "Tito Andrónico", de William Shakespeare, numa tradução de Miguel Romeira, que também escreve a introdução, bem como "Discurso sobre a servidão voluntária", do filósofo francês Étienne de la Boétie, famoso discurso do século XVI que apela ao espírito crítico contra a alienação e pela liberdade, lembrando que a submissão de muitos a uma minoria só é possível pela submissão voluntária e alienação.

Na chegada da chancela Penguin a Portugal, destaca-se "Jenin ao amanhecer", de Susan Abulhawa, escritora e ativista palestino-americana, uma obra com 20 anos, e fenómeno internacional, reeditada nos Estados Unidos no ano passado, nunca antes publicada em Portugal.

A história acompanha ao longo de 60 anos uma família palestiniana forçada a deixar a sua aldeia e a exilar-se no campo de refugiados de Jenin, após a ocupação israelita de 1948, desvendando cicatrizes profundas.

Ainda na nova chancela em Portugal, serão publicados "Morte aparente", romance de estreia de Carolina Fulcher, sobre solidão, destino e amor, e "Esse lugar", da escritora galega Berta Dávila, sobre o tema da maternidade.

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