Investigador reconhece complexidade do mercado da exibição de cinema
Falta de literacia cinematográfica, desinteresse dos espectadores, um mercado desregulado e um Estado pouco interventivo são algumas das razões que explicam o atual panorama assimétrico de exibição de cinema, disse à Lusa o investigador Paulo Cunha.
Este docente da Universidade da Beira Interior, que estuda há vários anos as políticas públicas e a produção do cinema português desde o Estado Novo, reconhece a complexidade de uma análise à exibição de cinema, porque passa pelo comportamento de públicos, pelas estratégias das exibidoras e distribuidoras e pelos decisores políticos.
Quanto aos espectadores, Paulo Cunha considera que "estão menos fiéis, vão menos vezes ao cinema, com menor regularidade", e as salas de cinema "deixaram de ser um espaço de sociabilidade, gradualmente".
Além disso, os espectadores mais novos "têm uma multiplicidade de ecrãs com imagens de todo o lado e já não sentem essa necessidade de ir a um espaço especificamente desenhado para exibir cinema. A relação deles com a imagem mudou e o cinema é menos atrativo para eles", disse.
Os cinemas portugueses registaram no ano passado 10,9 milhões de espectadores, uma quebra de 8,2% face a 2024, segundo o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), no que foi o pior número desde 1996, sem contar com a pandemia.
Segundo o ICA, em 2025 a rede de exibição regular de cinema contava com 562 salas, a maioria concentradas nos grandes centros urbanos dos distritos de Lisboa (132), Porto (93), Setúbal (50), Braga (41) e Coimbra (30).
Com o encerramento de salas, em 2026 existem cinco capitais de distrito sem exibição comercial: Viana do Castelo, Bragança, Guarda, Portalegre e Beja.
Tanto na exibição como na distribuição, o mercado português é liderado pela empresa NOS, através da NOS Lusomundo Cinemas -- que em 2025 explorava 213 salas -- e da distribuidora NOS Lusomundo Audiovisuais.
Para o investigador Paulo Cunha, o Estado tem de intervir para responder às assimetrias no território e a "uma situação de monopólio que asfixia o mercado", quer na exibição quer na distribuição de filmes pelas salas.
"Se o Estado concede licenças para os operadores de televisão funcionarem, licenças para operadores de telecomunicações funcionarem, o Estado também tem de regular de forma mais ativa este setor, porque é um espetáculo público", disse.
E deu ainda outro exemplo: "Se houvesse uma política de ocupação de quota em que diz que um filme não pode ocupar mais de 10% de um complexo [de cinema], isso obrigaria os programadores a aumentar a diversidade" de filmes nas salas.
Questionado sobre outras soluções para o setor, Paulo Cunha defendeu ainda a existência de "mais cinemas de bairro", fora de centros comerciais, programação diferenciada em função de vários públicos, e investimento de longo curso no Plano Nacional de Cinema.
Criado pelo Governo em 2013 para promover a literacia cinematográfica nos públicos escolares, o Plano Nacional de Cinema tem uma vigência até 2030 e "é uma ideia interessante que ainda não teve o investimento necessário".
"O Plano Nacional de Cinema sobrevive à custa da carolice e da generosidade de docentes por esse país fora - que não estão a ser remunerados -- e que está a levar novos espectadores ao cinema. Nos espaços onde está a funcionar, está a renovar", constatou.
Para Paulo Cunha, as políticas nunca são de "impacto imediato, porque uma vez perdido o espectador, é muito difícil voltar a convencê-lo a voltar à sala".