Investigadora perde esperança de abrir túmulo de D. Afonso Henriques

A antropóloga Eugénia Cunha, impedida há um ano de abrir o túmulo de D. Afonso Henriques, em Coimbra, perdeu a esperança de retomar, com apoio de cientistas espanhóis, o estudo das ossadas do rei rebelde que fundou Portugal.

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O túmulo do fundador DR

No dia 06 de Julho de 2006, o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) proibiu o projecto de investigação do perfil biológico de D. Afonso Henriques, quando uma equipa luso-espanhola, liderada pela cientista Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra (UC), estava já a remover uma das pedras do sarcófago real, na Igreja de Santa Cruz, que tem actualmente o estatuto de Panteão Nacional, a par com o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Contactada hoje pela Agência Lusa, a antropóloga forense lamentou a recusa do IPPAR, apoiada pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, ao pedido de autorização para exumar os restos mortais de "O Conquistador".

Em 1143, perante maometanos e leoneses, D. Afonso Henriques, filho dos condes D. Henrique e D. Teresa, senhores do Condado Portucalense, fundou o único reino cristão da Península Ibérica que se manteve independente de Castela (hoje Espanha, com capital em Madrid) ao fim de quase 900 anos.

Apenas nos séculos XVI e XVII, entre 1580 e 1640, Portugal esteve subjugado política e militarmente a Espanha, no que constituiu a dinastia Filipina, com os reis vizinhos - Filipes I, II e III - a dominarem a coroa portuguesa.

Em 1640, os "conjurados", chefiados por D. João IV, restauraram a independência, mataram o colaboracionista Miguel de Vasconcelos e expulsaram os espanhóis, movendo-lhes uma guerra que se estendeu aos território ultramarinos, designadamente África e Brasil, e que Portugal veio a vencer nas décadas seguintes.

Há um ano, no dia 05 de Julho, a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) divulgou uma nota anunciando que uma equipa liderada por Eugénia Cunha, especialista em Antropologia Biológica, iria abrir o sepulcro de D. Afonso Henriques, o que já não acontecia, pelo menos, desde o reinado de D. Miguel, no século XIX.

"Pretende-se reconstituir o perfil biológico do primeiro rei de Portugal, a sua estrutura física, a sua estatura, a idade que tinha quando morreu, bem como tentar deslindar algumas patologias que o afligiram e que deixaram vestígios nos seus ossos", referia a nota.

Citando Eugénia Cunha, a assessoria da FCTUC informava que "só o registo esquelético facultará o colmatar de inquirições que permanecem nas muitas vezes contraditórias exposições históricas".

Um ano depois, em declarações à Lusa, Eugénia Cunha disse que "há um não claro" da ministra Isabel Pires de Lima, apoiada num parecer do IPPAR, à proposta de estudar os restos mortais de D. Afonso Henriques, que em 1143 proclamou a independência do novo país, futuro Reino de Portugal e dos Algarves, após a conquista aos mouros da faixa litoral do Sul, pelas tropas de D. Afonso III.

"Já acuso algum cansaço e não acredito" na possibilidade de reatar as investigações das ossadas do Rei Fundador, disse Eugénia Cunha, queixando-se da atitude do poder político ao "inviabilizar um projecto muito importante" para a comunidade científica.

"Não imaginávamos que isto pudesse acontecer", declarou há um ano à agência Lusa o cientista espanhol Luís Miguel Botella, responsável por idêntico estudo do que se julga serem os restos mortais do navegador Cristóvão Colombo, que está sepultado em Sevilha.

O académico de Granada, que integrava a equipa liderada por Eugénia Cunha, partiu na semana seguinte para o México, onde foi estudar os vestígios de canibalismo, prática que seria comum entre povos autóctones antes da conquista destes territórios pelos descobridores espanhóis do Novo Mundo.

A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, recusaria um segundo pedido da Universidade de Coimbra para abrir o túmulo de D. Afonso Henriques, agora já assumido pelo próprio reitor, Fernando Seabra Santos, que evitou ao longo dos últimos 12 meses falar publicamente do assunto.

Segundo o parecer do IPPAR, o projecto não garantia a salvaguarda do património

Em finais de Março, o IPPAR, através de um parecer do seu conselho consultivo, recomendou a Isabel Pires de Lima para manter a recusa dos acesso às ossadas, o que foi assumido em Maio pela ministra da Cultura, sempre com o aplauso de sectores monárquicos, designadamente do deputado Pignatélli Queirós, eleito por Lisboa em lista do PSD, e do pretendente ao trono de Portugal, D. Duarte Pio de Bragança, bem como do historiador José Mattoso, autor de uma biografia de D. Afonso Henriques.

Para o presidente dos conselhos directivo e científico da FCTUC, João Gabriel Silva, o projecto de Eugénia Cunha "tem um interesse científico inegável", tal como outros idênticos realizados um pouco por todo o mundo.

A equipa científica, liderada pela Universidade de Coimbra, "tinha todas as competências necessárias" para prosseguir os trabalhos, disse hoje João Gabriel Silva, admitindo que mantém ainda "alguma esperança" numa alteração da posição da ministra da Cultura.

Durante a tarde, o reitor Seabra Santos não se disponibilizou a falar à Lusa deste assunto.

No dia 18 de Junho, Seabra Santos contestou a "decisão final" da ministra de impedir a abertura do túmulo para fins científicos.

Maria do Céu Novais, assessora de imprensa de Isabel Pires de Lima, revelou hoje que a contestação do reitor constitui uma "exposição ao abrigo do direito de audiência", ao abrigo do Código de Procedimento Administrativo, que vai ser analisado pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR), que integra os antigos serviços do IPPAR e do Instituto Português de Arqueologia (IPA).

A fonte disse que, após apreciação do IGESPAR, "o assunto sobe outra vez à senhora ministra", a quem cabe responder de novo à Universidade de Coimbra, processo que não tem prazo definido.

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