Investigadoras defendem atualidade e projeção global da poeta

Investigadoras defendem atualidade e projeção global da poeta

Investigadoras de diversas nacionalidades defenderam que a poesia libertadora de Noémia de Sousa, que completaria cem anos no domingo, é atual, alertando para a necessidade de superar barreiras académicas e traduzir a sua obra globalmente.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Para as investigadoras Carmen Tindó Secco e Vanessa Ribeiro, ambas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o contacto dos alunos com a obra da "mãe dos poetas moçambicanos" é marcante.

"A gente sempre estudou a poesia da Noémia, que é uma poesia muito forte, tem uma musicalidade, recupera os ritmos africanos através da linguagem, é de uma beleza sonora que toca a emoção do leitor", declarou Carmen Tindó Secco, destacando que a poeta moçambicana "desperta muito a leitura dos alunos" no Brasil.

Vanessa Ribeiro, que investiga as literaturas africanas de língua portuguesa há 25 anos, concorda com Carmen Secco, referindo que os estudantes "costumam ficar surpresos" por conseguirem perceber o seu próprio tempo na poesia" da autora.

"Ela tem muito para dialogar com o nosso tempo", acrescentou, classificando a poeta moçambicana como uma "visionária não só do Moçambique livre, mas de um mundo que ainda luta tanto por liberdades".

Além de se manter atual, a dicção poética de Noémia "rompe com os modelos que o ocidente trabalha" e continua a influenciar artistas contemporâneos, como a poeta moçambicana Énia Lipanga, o rapper brasileiro Emicida e a Deusa D`África, pseudónimo literário da escritora Dércia Sara Feliciana, segundo Carmen Secco.

"Ela [Noémia de Sousa] é grito, voz, emoção e ela toca o coração daqueles que estão a ser discriminados", sublinhou.

No entanto, a circulação da sua obra enfrenta barreiras estruturais, de acordo com as investigadoras.

A investigadora italiana Noemi Alfieri, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), explicou que o interesse pela poeta surge de "grandes lacunas [na Academia] no que toca em geral à literatura escrita por mulheres", uma vez que esta "tem mais dificuldades de circulação, é menos premiada e publicada quando as mulheres estão em vida, e geralmente elas também gozam de uma fortuna crítica reduzida após a sua morte.

Cruzando textos, entrevistas e arquivos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) para "reconstruir um pouco o percurso da autora, as suas referências e identificar quais são os pontos, tanto da inovação como da reflexão, que ela traz para a poesia", Alfieri nota que Noémia atrai atenção sobretudo no Brasil e em Moçambique, mas defendeu que a autora ainda "não é suficientemente lida e estudada nas academias".

Em Portugal, Noémia ainda não foi despertada, apesar de existirem estudos sobre a poeta feitos pelas investigadoras Fátima Mendonça, Inocência Mata, Mafalda Leite, entre outras, disse Alfieri.

Para a investigadora da FCSH-UNL, Noémia "não é suficientemente lida e estudada nas academias" e defendeu que "é muito importante estudar, difundir e falar da poesia da Noémia de Sousa hoje, tanto nas academias como fora delas, nos circuitos culturais que saem do contexto académico".

Alfieri vê na poesia "uma das formas mais imediatas [de luta]" para combater ameaças sociais e discursos através da memória histórica.

O impacto de Noémia de Sousa ultrapassa a lusofonia, existindo investigações na Argentina, Polónia, República Checa e Estados Unidos sobre temas como a negritude, a escravatura, o feminismo, o racismo, a religião, o pan-africanismo, a luta anticolonial e a identidade moçambicana.

Face a este alcance, as investigadoras defendem novas abordagens e internacionalização da sua obra.

Vanessa Ribeiro, que tem estado a investigar a relação da poesia de Noémia com a música, acredita que há "muita coisa ainda para ser desbravada ali nos poemas, que parece que a gente já conhece muito bem, mas eu acho que eles têm tesouros ainda escondidos".

Ribeiro defendeu também que a poesia de Noémia deve ser traduzida "para quantas línguas for possível" para fomentar a investigação global.

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida como Noémia de Sousa, que assinala em 20 de setembro o centenário do seu nascimento, morreu em 2002, em Cascais, Lisboa.

A jornalista, tradutora e poeta moçambicana é considerada uma das figuras mais marcantes da literatura moçambicana e do combate anticolonial.

 

 

 

 

 

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