Ivan Cardoso dá lição de cinema em Lisboa
O realizador Ivan Cardoso, autor de culto de cinema de terror brasileiro, está em Lisboa para mostrar que o terror também é para rir. O segredo está em desconstruir o cinema e não se levar muito a sério.
No intervalo de um pequeno curso de cinema que deu em Lisboa, no âmbito do primeiro Festival Motelx, Ivan Cardoso explicou à agência Lusa que a razão de ser do "terrir" está na essência do ser brasileiro.
"Terrir é um jeito brasileiro de fazer terror, sendo eu do país do Carnaval, do samba, da mulata e da feijoada, eu não faria um filme de terror ao jeito anglo-saxónico", descreveu o realizador, de 55 anos.
Ivan Cardoso, com 37 anos de carreira dedicada ao cinema e à fotografia, estreou-se no cinema com o filme "Nosferatu no Brazil", em 1970, protagonizdo por Torquato Neto, poeta do movimento Tropicália.
Entre os seus filmes mais conhecidos, e que passam em Lisboa no Motelx, estão "O segredo da múmia" (1982) e "As sete vampiras" (1986) ou "O sarcófago macabro" (2006).
Aceita que digam que é um realizador de cinema "trash", de um cinema ultra-independente, contra a corrente e difícil de ser catalogado nas prateleiras convencionais do cinema de terror.
"O papel do artista é desafinar o coro dos contentes, senão não tem graça", reforçou o autor.
"Eu sempre fiz filmes a sério, mas as pessoas sempre riram deles. Mas, como são comédias de terror, elas só se completavam quando eram exibidas para o público e ele se ria delas", disse.
Para explicar aquilo que tem feito ao longo de quase 40 anos, Ivan Cardoso socorreu-se de várias referências ao cinema, à religião, à política, aos seus ídolos e ao que resta deles.
Os seus filmes são "meta-linguísticos e ricos em homenagens ao cinema", influenciados pelo cinema mudo, por Charlie Chaplin e Bucha e Estica, por Fritz Lang, Murnau, por Zé do Caixão (personagem criada pelo realizador brasileiro José Marins) e Jean-Luc Godard.
"Se me perguntarem quem é o maior cineasta vivo, eu respondo que é o Godard, porque não existe na história do cinema um cineasta que, num curto espaço de tempo, tenha revolucionado de tal forma o cinema", sentenciou.
São influências que vêm da juventude, da vivência no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e sempre viveu, do tempo passado na Cinemateca e a ver televisão.
Hoje, num mundo de globalização, Godard e Bob Dylan são, para Ivan Cardoso, os dois últimos ícones que restam.
"O [Jorge Luís] Borges morreu, o Ginsberg, o Warhol, o Buñuel, o Dalí, todos morreram. E infelizmente já está tudo inventado não só no cinema como nas outras artes", lamentou.
Ivan Cardoso é católico, mas não acredita em Deus e diz que não há maior filme de terror do que a Via Sacra.
Na juventude foi "esquerdofrénico", mas agora é "americanófilo", detesta George W. Bush e está ao mesmo tempo do lado de Hillary Clinton e de Barack Obama.
É um "animal urbano", bebe coca-cola há trinta anos e gosta de Quentin Tarantino e Tim Burton, dois autores que ainda escapam ao "politicamente correcto".
"Uma das coisas chatas do mundo actual é que é tudo politicamente correcto e globalizado", dominado pelos "grandes clubes económicos. A maré só corre para eles", criticou o autor de "A marca do terrir".
É por isso que Ivan Cardoso diz: "eu faço cinema porque é um maneira de sonhar acordado, de viver um outro mundo aqui mesmo".