Joana Carneiro leva a "Ressurreição" de Mahler ao CCB

Lisboa, 03 abr (Lusa) -- A maestrina Joana Carneiro que, no domingo, vai dirigir a Segunda Sinfonia de Gustav Mahler, "Ressurreição", em Lisboa, assinalou os "contrastes" da peça, mas realçou "as indicações precisas" dadas pelo compositor.

Lusa /

"Esta é uma obra cheia de contrastes que até o próprio Mahler identificou e, por isso, escreveu, por exemplo, uma pausa entre o primeiro e o segundo andamento, que devia ser inferior a cinco minutos, exatamente pelo contraste, para termos tempo para passar dum andamento para o outro, de uma forma musical e natural", disse.

A experiência de Gustav Mahler (1860-1911) como maestro é notada nas suas composições, disse a maestrina, referindo que o compositor "muitas vezes colocou indicações que advêm da experiência de dirigir". Joana Carneiro vai dirigir a Sinfonia "Ressurreição", de Mahler, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP) e o Coro do Teatro de São Carlos, domingo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

"Nota-se bem nas partituras, a influência que vem a direção de orquestra. Eu, que dirijo orquestras, noto bem a influência que a direção de orquestra tem no compositor, pelas indicações que dá, tão específicas, em termos dinâmicos, da gestão do próprio som, da gradação dinâmica, da arquitetura, do quão fluida a música deve ser, até onde deve ir. É extraordinariamente específico de uma forma que não se encontra noutra partitura", sublinhou.

"Há indicações de alterações rítmicas, de vozes, `contrapontistas`, fruto da experiência de dirigir", enfatizou.

A Segundo Sinfonia, "Ressurreição", de Mahler é interpretada com as solistas Dora Rodrigues (soprano) e Maria José Montiel (meio-soprano), sob a direção de Joana Carneiro, no domingo, às 17:00, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

A sinfonia foi escrita entre 1888 e 1894 e, segundo a maestrina, reflete muito daquilo que, naquele período, Mahler experienciou e viveu.

"Para mim é uma obra que é muito inspirada pela Ressurreição, pela palavra, muito inspirada na voz, não só pelo coro, mas também na canção, naquilo que é de mais íntimo - a canção/lied -, e há aqui um contraste desta obra, que vai da música mais sinfónica, para a mais intimista", disse a maestrina que destacou o quarto andamento, "Urlicht", a luz primordial.

"Esta é uma obra magnífica e grande", disse a maestrina, que sublinhou que "tem sido uma experiência muito boa" o trabalho de ensaio com os músicos e as cantoras.

"Os músicos estão emocionados, empenhados, felizes por tocar esta peça, e o trabalho está a correr muito bem", disse.

Referindo-se à sinfonia do compositor austríaco, nascido na região da Boémia, Joana Carneiro afirmou que é necessário, para quem dirige, "encontrar esse contraste, e uma arquitetura sonora, em que exista uma gradação dinâmica que, aliás, é muito específica na partitura".

Questionada pela Lusa sobre a sua experiência com o maestro norte-americano Michael Tilson Thomas, que empreendeu uma integral de Mahler, em concerto e em disco, e com o qual fez uma "masterclass" em Miami, na Florida, Joana Carneiro afirmou: "Ajudou-me muito na minha carreira e tem estado muito presente na minha vida".

"No caso de Mahler, ele é uma referência. Está atualmente a fazer uma digressão com a sua orquestra, a Sinfónica de S. Francisco, em que toca precisamente Mahler".

"Uma vez ele chamou-me ao seu camarim e explicou-me quão importante era procurar chegar ao que seria a cabeça dos compositores, a experiência que tinham vivido e como isso o tinha influenciado. E no caso da música de Mahler, ela é, frequentemente, biográfica", afirmou.

Joana Carneiro, maestrina titular da OSP, oficialmente, desde janeiro, destacou "a especificidade técnica" de Tilson Thomas na direção, a sua "forma específica de construir frases técnicas, crescendos, diminuendos, `acelerandos` e `desacelerandos`".

"Sem dúvida, ao longo da minha vida, quando faço alguns gestos, revejo alguns desses seus ensinamentos", rematou.

A Sinfonia "Ressurreição" narra a queda e morte do herói, as suas dúvidas e a fé na ressurreição, no juízo final. O primeiro andamento é sobre a morte, no segundo há uma revisitação/memória da vida, o terceiro representa a dúvida e a incerteza no destino. No quarto é readquiria a fé e, no quinto andamento, o derradeiro, coral, verifica-se a ressurreição.

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