João Garcia Miguel apresenta "Burgher King Lear" no Porto
Um "Rei Lear", de Shakespeare, com o texto "esquartejado e esmagado", bilingue e com uma dúzia de personagens concentradas em dois actores é a proposta que João Garcia Miguel apresenta até domingo no Teatro Carlos Alberto, no Porto.
Aos actores Anton Skrzypiciel (australiano de origem polaca) e Miguel Borges, ambos vestidos de palhaços, cabe a dura tarefa de entregar ao público esta nova abordagem do texto do rei Lear, no espectáculo denominado "Burgher King Lear".
O australiano, que assume as vestes do palhaço rico, é um rei Lear intenso, enquanto Miguel Borges, o palhaço pobre, incorpora todas as outras personagens.
Estas são as filhas do rei (as pérfidas Regan, Goneril e a favorita Cordélia), os seus maridos e demais nobres e pessoal da corte do monarca louco - o criado Oswald, os duques de Cornwall e Albany e os condes de Kent e Gloucester, os dois filhos deste último (Edgar, o legítimo, e Edmund, o ilegítimo), assim como o bobo da corte.
Apesar do hercúleo trabalho de Miguel Borges, que corre de um lado ao outro do palco - mudando radicalmente de registo de voz para marcar as mudanças de personagem - por vezes só se consegue notar a mudança com recurso ao ecrã onde à tradução do texto inglês do rei Lear, se sucedem, em português, as falas dos diversos personagens, com a indicação do seu nome.
"É a mestria dos actores que faz com que este texto funcione com apenas dois intérpretes", frisou o encenador João Garcia Miguel, ao falar com os jornalistas antes do ensaio geral da peça, realizado quarta-feira.
E porquê o título "Burgher King Lear"? Porque, diz, além do jogo com o nome cadeia de "fast food" norte-americana, a palavra burgher significa em inglês arcaico e em alemão "cidadão".
João Garcia Miguel sublinha, ainda, a "dupla intenção irónica e crítica" que esta escolha de título envolve.
"O Rei Lear está farto de ser rei e quer ser uma pessoa normal, um cidadão, tal como qualquer cidadão sonha transformar-se noutra personagem", afirma o encenador.
Quanto à opção de vestir os dois actores de palhaços, Garcia Miguel disse que "a máscara de palhaço permite aos actores imensa liberdade e, por outro lado, torna mais fácil ao público aceitar certas ousadias da encenação".
No que respeita à desconstrução e reconstrução do texto de Shakespeare, Garcia Miguel reconhece que "pegar num texto de Shakespeare e desconstruí-lo e transformá-lo é uma coisa que as pessoas não se atrevem a fazer, porque é também pegar nos próprios fundamentos do teatro".
"É um desafio imenso", admitiu.
O resultado é o espectáculo, estreado a 17 de Novembro de 2006, em Montemor-o-Novo, numa produção conjunta de João Garcia Miguel, o Espaço do Tempo e Casa dos Dias d`Água e agora reposto no Teatro Nacional de Carlos Alberto (TECA).
A cenografia e figurinos são de Ana Luena, a música de Rui Lima e Sérgio Martins, o vídeo é de Jorge Bragada e a caracterização de Jaime Gonçalves.