João Paulo Feliciano expõe obras do período 1989-1994 na Culturgest
Obras seleccionadas do artista plástico João Paulo Feliciano produzidas no período entre 1989 e 1994 compõem a exposição intitulada "The Possibility of Everything", patente a partir de sábado na Culturgest, em Lisboa.
Segundo o comissário da exposição, Miguel Wandschneider, não se trata de uma mostra "nostálgica ou historicista", mas de analisar um ciclo, "uma fase especialmente produtiva da obra de um dos protagonistas-chave da sua geração".
"O que João Paulo Feliciano faz é uma associação versátil, concisa e irónica entre materiais, imagens e significados", resume.
São 40 peças, entre instalações, esculturas, alguns desenhos e uma pintura, distribuídas por 1.200 metros quadrados de espaço expositivo da Culturgest.
Todas têm títulos em inglês, porque a língua inglesa tem um poder de síntese, uma riqueza em duplos sentidos, em polissemias, que interessa muito ao artista, que entende os títulos como parte integrante da sua obra.
"Os títulos são tão importantes como os elementos formais das obras, são uma extensão linguística que as peças têm", explica Wandschneider.
O uso do inglês nos títulos das peças, bem como no nome da exposição, "tem a ver com a própria socialização do João Paulo Feliciano, com a cultura com que se identifica e a que pertence, é uma expressão do mundo cultural em que está integrado, por exemplo pela música rock", segundo o curador.
João Paulo Feliciano, de 43 anos, tem um percurso atípico:
estudou Línguas e Literaturas Modernas, não passou pelas Belas Artes e formou entre 1988 e 1989, "por brincadeira", uma banda de rock chamada "Tina and The Top Ten", que deu alguns concertos e tem um único registo discográfico, "Teenage Drool".
É este disco que serve de banda sonora a uma instalação com um gigantesco puff vermelho que cobre toda a superfície de uma das salas da Culturgest, iluminada a azul e com auscultadores que pendem do tecto, convidando à audição da música.
A peça, de 1994, chama-se "The Big Red Puff Sound Site" e foi apresentada no Centro Cultural de Belém no âmbito de Lisboa Capital da Cultura 1994, numa exposição intitulada "Depois de Amanhã".
Outro exemplo da junção dos universos da arte contemporânea e da cultura rock é a peça criada em 1991, em resposta a um repto do semanário Expresso a vários artistas para criarem uma página do jornal.
João Paulo Feliciano criou um anúncio de uma editora discográfica chamada Moneyland Records, que apresentava os lançamentos previstos para o ano seguinte.
O artista conta que no anúncio pôs a sua morada e recebeu cartas de várias pessoas que queriam saber como se podia encomendar aqueles discos.
A ironia da história é que a editora veio a existir, dois anos depois, e alguns dos discos anunciados saíram com a sua chancela, um dos quais dos Sonic Youth, uma cópia pirateada e autorizada com o mesmo nome e uma capa diferente da original.
Observando que o período entre 1989 e 1994 "não é um período homogéneo", o curador sublinhou que "o mais surpreendente é ver até que ponto o trabalho de João Paulo Feliciano se expandiu e ramificou em várias direcções, passando por uma fase muito conceptual (1989- 90)".
Nessa fase - indicou -, há várias obras que se colocam "num plano de auto-referencialidade ou auto-reflexividade: a obra remete para si própria", embora o artista tenha acrescentado que "isso nunca é 100 por cento verdade".
"One Meter High" (1989) é como se chama uma peça "hiper- conceptual" que consiste num risco a lápis que percorre todas as salas da exposição, traçado exactamente a um metro de altura do chão e que é assinada.
"Essa assinatura, que é absurda, é uma espécie de crítica ao fetichismo da mão (pintar à mão, desenhar à mão). É um comentário muito ácido a valores que ainda estavam muito presentes nos próprios critérios de avaliação da arte naquela altura", frisou Miguel Wandschneider.
De acordo com o comissário, "é uma peça muito estranha, muito fora-de-água, no contexto artístico português de 1989, que era ainda muito conservador, e que se apropria do espaço e elimina completamente a relevância do gesto, do desenho, da manualidade".
"O seu trabalho, visto a 15 anos de distância, não envelheceu, até porque os significados das suas peças não são necessariamente transparentes, não se encontram escancarados, existe uma grande complexidade", apontou.
O espectador poderá não descodificar as obras em toda a sua complexidade, elas "não precisam de ser totalmente descodificadas para serem apreendidas pelo público", disse Miguel Wandschneider.
"Procuro aliar os códigos da arte contemporânea à cultura de massas, encontrar formas de ser inteligente perante as pessoas comuns e de cativá-las, ter capacidade de sedução", afirmou João Paulo Feliciano.
Wandschneider justificou também a forma como a exposição foi construída, organizada e apresentada com a "importância crucial daquele corpo de obras no contexto artístico português da época".
A obra do artista plástico "antecipa, prefigura e reflecte de uma forma plena mudanças que se estavam a verificar nas práticas artísticas em Portugal", defendeu o comissário da mostra.
A exposição poderá ser vista nas galerias um e dois da Culturgest até 30 de Dezembro, com visitas guiadas com o artista e o curador a 14 de Outubro e 04 de Novembro, só com o curador a 16 de Novembro e com Delfim Sardo a 16 de Dezembro, sempre às 17:00.