José Saramago rejeita oposição entre seduzir e ser seduzido
O prémio Nobel da Literatura José Saramago afirmou que o seu último volume, a peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido" mostra que não há oposição entre seduzir e ser seduzido.
José Saramago afirmou, em entrevista publicada hoje pelo jornal brasileiro O Estado de São Paulo, que "Don Giovanni é incapaz de ficar indiferente na presença de uma mulher", a propósito do lançamento da peça no Brasil, esta semana, pela Companhia das Letras.
"O que sucede é que, sendo constantemente seduzido, é também constantemente sedutor. A dicotomia entre seduzir e ser seduzido é mera aparência. Ninguém seduz se não é seduzido, ninguém é seduzido se não seduz", disse o escritor português.
José Saramago salientou que o propósito da peça não foi "tanto desmistificar Don Giovanni como pôr a descoberto a hipocrisia do comportamento das restantes personagens principais, isto é, Comendador, Dona Ana, Don Octávio e Dona Elvira." "Todos eles têm sido apresentados como vítimas inocentes do malvado Don Giovanni, e a verdade é que não encontro qualquer tipo de inocência em nenhum deles. Meu texto é bastante claro a esse respeito", disse.
Instado a comentar as personagens Elvira e Zerlina, José Saramago salientou que "no geral, ainda que sem esquecer as excepções de um lado e do outro, penso que as mulheres são melhores que os homens".
"No particular, isto é, como escritor criador de ficções, tenho-me rendido à força com que se apresentam as minhas personagens. Começou em `Manual de Pintura e Caligrafia` e não parou até esta Zerlina de Don Giovanni", afirmou o escritor.
O prémio Nobel de Literatura de 1998 salientou ainda que seu trabalho está centrado no romance "menos interessado em contar histórias que em ser um veículo para a reflexão, como vem acontecendo desde `Ensaio sobre a Cegueira".
"Não tenho projectos para a revisitação de outras obras, mas também é certo que nunca me tinha passado pela cabeça que um dia me atreveria com Don Giovanni", realçou o escritor.
A reportagem, intitulada "Ópera da Anarquia", salienta que a nova obra de José Saramago inspira-se no clássico libreto da ópera de Mozart e transforma o personagem principal que, de sedutor, torna-se um homem permanentemente seduzido.
A reportagem, capa principal do caderno de Cultura, traz igualmente uma caricatura do escritor português e reproduz um trecho do diálogo entre o Comendador e Don Giovanni.
Na página interna, o jornal destaca com o título "O homem ao sabor do desencanto" que a peça de José Saramago "combina discurso consistente com rigor na construção de personagens.
"Ao lermos a peça segundo essas premissas, comprovamos que, mesmo sendo uma comédia ácida que ridiculariza os costumes, há rigor na construção das personagens, domínio das funções que elas exercem na intriga, clareza nos conflitos estabelecidos e óptimos diálogos espalhados por toda a obra", diz o texto.