Juergen Habermas impede venda da autobiografia de Joachim Fest

O filósofo alemão Juergen Habermas impediu, por via judicial, a publicação e venda da autobiografia do historiador Joachim Fest, "Ich Nicht", (Eu Não), em que é alegadamente acusado de colaboração com os nazis.

Agência LUSA /

Fest, recentemente falecido, não se refere expressamente a Habermas, mas na referida passagem fala de "ex-criminosos nacional- socialistas que após a guerra se destacaram pela grande negação".

Fest acrescenta que, além da via seguida pelo escritor Gunter Grass, que só há alguns meses revelou ter sido membro das Waffen-SS, a tropa de elite do regime nazi, "há outros caminhos de fuga" para a referida negação, "e um desses caminhos foi trilhado por uma das grandes cabeças do país".

Sem nunca citar o nome de Habermas, o historiador assinala que a pessoa em questão "esteve ligada ao regime nazi com todas as fibras da sua existência, como dirigente da Juventude Hitleriana".

Na opinião do filósofo e dos seus advogados, a pessoa a quem Fest se refere é "imediatamente identificável" como sendo Juergen Habermas.

Habermas alude indirectamente, por sua vez, ao boato que corre há muito tempo em meios intelectuais alemães de que ele teria sonegado, depois da guerra, o formulário preenchido que provava a sua adesão à Juventude Hitleriana, quando tinha 14 anos.

O filósofo considerou, por isso, "difamatória" a referida passagem no livro de Fest, interpôs uma providência cautelar, e o Tribunal Regional de Hamburgo, num acórdão publicado na quinta-feira, deu-lhe razão, interditando a publicação e venda da biografia do historiador, na sua versão original.

A Editora Rowohlt, que publicou a obra, em Setembro, já anunciou que respeitará a decisão do tribunal, informando que, a partir de hoje, estará nas livrarias uma versão sem o controverso parágrafo.

Um porta-voz da Rowohlt comunicou, simultaneamente, que irá ser interposto recurso da decisão judicial para a instância superior.

Por sua vez, o director comercial da Rowohlt, Eckhard Kloos, alegou que na autobiografia de Joachim Fest "não está nada sobre Habermas, trata-se apenas de uma história sobre a superação do passado".

Joachim Fest, o malogrado editor do Frankfurter Allgemeine Zeitung, ficou célebre sobretudo por escrever uma biografia de Adolf Hitler, ainda hoje considerada a melhor obra sobre o ditador nazi.

Na sua biografia, que saiu pouco dias antes de morrer, Fest fala sobre a resistência da sua família católica e conservadora ao regime nacional-socialista, e da forma como o pai, que recusou qualquer colaboração com os nazis, o influenciou para toda a vida.

A controvérsia entre Joachim Fest e Juergen Habermas remonta à célebre "Polémica dos Historiadores" na Alemanha, iniciada em Julho de 1986 com uma carta do filósofo a criticar a decisão do editor conservador do Frankfurter Allgemeine de dar espaço nas colunas do matutino às controversas teses do historiador nacionalista Ernst Nolte.

Nolte sustentou que o extermínio em massa de seres humanos levado a cabo pelo regime nazi era equiparável aos crimes do estalinismo, o que originou reacções indignadas de muitos intelectuais alemães, liderados por Habermas.

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