"La lucidité" é "pequena jóia de inteligência e humor" afirma o Le Monde
"La Lucidité", o título em francês do romance "Ensaio sobre a lucidez", de José Saramago, "é uma pequena jóia de inteligência e humor, cuja leitura nunca será demais aconselhar, a começar pelos políticos", escreve hoje o Le Monde.
A versão francesa do romance de Saramago é lançada dentro de dias em França.
"Neste período que levará os franceses, dentro de alguns meses, a elegerem um novo presidente, aqui está um livro que não podia chegar em melhor altura", diz o jornal.
"Divertido, sarcástico, mas igualmente sombrio nas suas considerações - qualifica -, o novo romance de José Saramago (o seu décimo quarto traduzido em francês) é, sob a aparência de uma fábula - género de que o escritor gosta -, um livro de cólera e de denúncia contra um sistema democrático que ele considera transviado".
Complementa esta recensão sobre o livro, uma entrevista ao escritor em que este reconhece ser "O ensaio sobre a lucidez" agora traduzido o seu livro "mais directamente político, porque fala do voto branco e, deste ponto de vista, é o mais subversivo".
Saramago evocou, a propósito, as reacções em Portugal a esse romance e, nomeadamente, a acusação de que pretenderia "destruir a democracia".
"Deduzi daí que o voto branco causa medo", observou.
Nesta sequência, recordou que, na apresentação do livro em Portugal, o ex-presidente da república portuguesa Mário Soares exclamou: `Você não entende que 15 por cento de votos brancos seriam o colapso da democracia`".
"O verdadeiro colapso - comentou Saramago - seria haver 50 por cento de abstenções, porque, no voto branco, há uma iniciativa, um acto voluntário do eleitor".
Noutro passo da entrevista, o romancista afirmou viver-se "numa época em que tudo pode ser discutido", mas em que há um assunto "que não se discute, a democracia".
"É extraordinário - ponderou - que as pessoas não parem para se interrogar sobre o que é a democracia, para que serve ela, a quem serve. É como a Virgem Santa - ninguém ousa tocar nesse assunto. Tem- se a impressão de que é um dado adquirido".
A rematar o seu raciocínio, Saramago advogou: "Seria preciso organizar um debate à escala internacional sobre este assunto e, aí, certamente, chegaríamos à conclusão de que não vivemos numa democracia, de que ela é apenas uma fachada".