Lela Violão lança o primeiro disco aos 78 anos

Lela Violão, de 78 anos, toca viola desde os 8 e lança quarta-feira, na Cidade da Praia, o seu primeiro disco, um CD com 12 temas de música tradicional cabo-verdiana, garantindo que tem centenas de outras músicas para gravar.

Agência LUSA /

Chamado "Caldo de Rabeca" (Rabeca é uma espécie de violino), o disco se rá apresentado no auditório do Centro Cultural Português/Instituto Camões, e foi feito em parceria com Martin Schaefer, um músico de origem checa conhecido pela s suas criações no âmbito da música cigana da Europa Central.

Gravado há mais de um ano e à espera de apoios até agora, nele Lela Vio lão, na verdade Manuel Tomás da Cruz, canta em quatro faixas.

"Tenho sorte, não fumo e não bebo e ainda tenho voz", disse em entrevis ta à Agência Lusa, não escondendo a alegria de lançar o seu primeiro disco, embo ra lembrando que, como integrante do antigo grupo cabo-verdiano Simentera, está imortalizado em vários outros CD.

Mas este é diferente, até pela dificuldade em faze-lo sair, como de res to difícil tem sido também a sua vida, criando 30 filhos (29 vivos, porque um mo rreu já adulto num acidente de viação).

Lela tem a particularidade de tocar viola sem poder usar o dedo médio d a mão esquerda (que é fundamental), depois de o ter perdido numa operação malfei ta após um acidente em S. Tomé e Príncipe, quando aí trabalhou na Roça Água-Izé.

Nascido na Ilha de S. Vicente, Lela Violão começou a tocar viola aos 8 anos, de ouvido, às escondidas do pai, e aos 14, ainda sem que o pai soubesse, j á tocava em bailes e festas.

Depois de trabalhar três anos em S. Tomé voltou, com 28, a Cabo Verde e nessa altura, devido ao problema do dedo, esteve quase a desistir de tocar, até porque necessitava de um trabalho que lhe sustentasse a família, que por essa a ltura começou a crescer.

Foi porta-minas (ajudante de topógrafo) e acabou como encarregado de co nstrução de estradas em Santiago, a maior ilha do arquipélago, onde hoje vive. A música só teve a sua atenção a cem por cento depois de se reformar mas nunca de ixou de, nos poucos tempos livres, fazer serenatas e actuar em espectáculos em b ares e restaurantes, sem contar com a sua participação no grupo Simentera (já ex tinto).

Foi de resto graças ao grupo que conheceu a Europa, aos 72 anos, e reco rda com muita saudade o último espectáculo do grupo em Portugal, numa vila que a dorou (Sines).

Há quatro anos conheceu Martin Schaefer, que vive em Paris mas que este ve nessa altura, pela primeira vez, em Cabo Verde, para participar num espectácu lo de Jazz. E o "Caldo de Rabeca" surgiu assim.

Schaefer, como contou o músico à Lusa, tem desde então vindo duas vezes por ano a Cabo Verde, onde ensina violino em vária ilhas, procurando contribuir para criar uma orquestra de cordas que inclua músicos de todo o arquipélago.

No disco que é lançado quarta-feira com o apoio de Portugal, inclui-se música "trazida" por Martin Schaefer, como uma valsa de Paris ou duas músicas ir landesas.

Lela Violão contribuiu com duas mornas (uma do compositor B.Leza), e ca nta até uma canção em inglês e outra em francês.

"Tenciono fazer pelo menos mais um disco antes de morrer", diz o artist a, que garante ter "na cabeça" pelo menos 96 sambas brasileiros, 200 mornas e 15 0 coladeiras (música tradicional cabo-verdiana).

"Desde criança aprendi música, cresci entre seis meninas, fui o último a nascer. Elas ouviam música e eu ouvia e decorava, até hoje. Hoje só há uma dif erença, é que me esqueci de alguns dos autores", lamenta.

Mas também lamenta que, com 78 anos, já não tenha muito tempo para deix ar gravado tudo isso. E que não deixe um futuro assegurado para os seus cinco fi lhos menores, o mais pequeno com 5 anos.

Mas orgulha-se de ter criado as suas três dezenas de filhos. "Trabalhei para eles todos, fiquei sem nada, nem uma casa para morrer eu tenho", diz, sem queixumes mas sempre dizendo: "Se eu morrer não sei o que vai ser deles".

O disco, esse, gostava que ultrapassasse as fronteiras de Cabo Verde e aparecesse nas montras de Lisboa ou Paris. Mas pensa que não, porque é uma ediçã o pequenina.

Fica um consolo: "fiz 78 anos a 18 de Janeiro mas ainda sou capaz de di vertir com os meus dedos e a minha voz".

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