Leonor Teles foi uma "mulher moderna", defende historiadora espanhola

A rainha Leonor Teles foi "uma mulher moderna", pois pretendia desempenhar um papel na sociedade da sua época, finais do século XIV, defende a historiadora María Pilar Del Hiero.

Agência LUSA /
As crónicas da época apelidam Leonor Telles de "a aleivosa" DR

"Eu, Leonor Teles, a dama maldita" é o título da obra, uma biografia ficcionada em que Pilar Del Hiero procura "pôr a falar" a mulher de D. Fernando I, "já que muitos falaram sobre ela, mas ela nunca se explicou".

Leonor Teles, que as crónicas da época apelidavam de "a aleivosa", a Rainha Santa Isabel e Inês de Castro constituem, segundo a historiadora espanhola, um dos "mais interessantes frescos" da Idade Média portuguesa.

A historiadora espanhola escreveu já a biografia de Inês de Castro (2003), projecta a de Isabel e edita agora a de Leonor, que considera "a grande figura misteriosa da História de Portugal".

Na sua opinião, Leonor, uma mulher "ambiciosa, manipuladora (Ó), apaixonante", foi "demonizada pelos interesses gerais, nomeadamente da ascendente dinastia de Aviz".

"Ela - referiu - sempre se bateu por um papel na sociedade do seu tempo, em Portugal, ainda ao lado de D. Fernando, com a morte deste na regência do Reino, e mais tarde pelo papel de mãe da Rainha Dona Beatriz, que não chegou a ter devido à morte prematura de João I (de Castela) com quem se casara Beatriz".

Nesta "autobiografia", editada pela Esfera dos Livros, Pilar Del Hiero "veste a pele" de Leonor Teles, uma técnica narrativa em seu entender "mais objectiva e individual", referindo "os vários factos e fazendo os quadros de época".

O livro inclui uma cronologia, pequenos esboços biográficos das principais personagens e uma árvore genealógica, o que permite ao leitor - esclareceu - "identificar o real e o ficcionado", podendo ainda estimulá-lo a "pesquisar mais".

Para este seu romance, a autora fez uma pesquisa histórica e optou pelas teses dos historiadores que defendem que a mulher do Rei D. Fernando I, morreu em Valladolid em 1405, e não em 1391, como outros afirmam.

"Há documentação em Valladolid que o atesta, nomeadamente uma a visita de D. Guerau de Queralt, embaixador do Rei de Aragão, que vai à Corte de Henrique III de Castela pedir protecção para a Rainha Dona Leonor e a sua filha Dona Beatriz", que fora Rainha de Castela.

O casamento de Beatriz, filha de D. Fernando e Dona Leonor, com João de Castela "alvoroçou as gentes de Lisboa", que recusavam a hipótese de uma união das Coroas, levando à chamada "crise de 1383- 85", que colocará no trono de Portugal D. João, Mestre de Aviz, filho bastardo do rei D. Pedro I de Portugal.

Pilar Del Hiero qualifica de "absolutamente espantosa a vitalidade" de Leonor, tendo em conta "os parâmetros da época", pois, saída da prisão em Tordesilhas, terá tido ainda dois filhos do cavaleiro Zoilo Iñíguez. O último destes filhos, Maria, teve-o quando completara já 46 anos.

Estes e outros dados são referenciados na que considera a mais importante e completa obra historiográfica sobre "a dama maldita", da autoria de Manuel Duarte Marques, editada em 2002.

"Eu, Dona Leonor, a dama maldita" foi editada, primeiro, em Portugal e "só mais tarde" o será em Espanha.


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