Lídia Jorge escreveu sobre o 25 de Abril "como um projeto de esperança"
Lisboa, 17 mar (Lusa) -- A escritora Lídia Jorge quis homenagear o 25 de Abril de 1974, no seu novo romance, "Os Memoráveis", e "falar desse dia como um projeto de esperança, não vindo do passado, mas como um projeto de futuro", disse à Lusa.
A obra, editada pelas Publicações D. Quixote, é apresentada na terça-feira, às 18:30, no Teatro Aberto, em Lisboa, pelo jornalista Mário Mesquita e a atriz Beatriz Batarda.
Em declarações à Lusa, a escritora afirmou que "é necessário que, adaptado aos tempos de hoje, aquilo que foi a esperança do 25 de Abril de 1974 se mantenha", e desejou que "aconteça um rasgão contra o medo".
A trama narrativa d`"Os Memoráveis" é protagonizada por Ana Maria Machado, uma repórter portuguesa em Washington que, em 2004, foi convidada a fazer um documentário sobre a Revolução, considerada pelo embaixador norte-americano à época, em Lisboa, "um raro momento da História", segundo comunicado da editora.
A repórter aceita o trabalho, forma uma equipa e entrevista vários intervenientes e testemunhas do golpe de Estado, "revisitando os mitos da Revolução de Abril", segundo o mesmo comunicado.
À Lusa, Lídia Jorge afirmou que pretendeu, neste romance, perspetivar "o que foi feito de uma utopia, projetá-la no decorrer do tempo e, ao mesmo tempo, levantar não só uma homenagem ao que aconteceu nesse dia [25 de Abril de 1974], como falar desse dia como um projeto de esperança, não vindo do passado mas como um projeto de futuro".
"É possível que os jovens percebam que é preciso hoje uma coragem muito forte para rasgar com o medo, o epicentro da causa do medo e do totalitarismo que se pode adivinhar não está explícito, tem delegados, mas não tem uma sede concreta", disse, para acrescentar em seguida: "É preciso um engenho diferente e uma ação diferente daquela que aconteceu no 25 de Abril, a coragem tem de ser a mesma, mas os modos outros, a coragem para enfrentar o desconhecido e a invenção têm de outra vez surgir", exortou.
Referindo-se ao 25 de Abril e como este inspirou o romance, a escritora afirmou que "é necessário que aquilo que foi a sua esperança se mantenha e que, nos tempos de hoje, aconteça um rasgão contra o medo na consciência de cada um".
"Temos um potencial de realização forte que acontece quando ultrapassamos a cobardia e somos livres, e assumimos a liberdade como uma expressão em voz alta", declarou.
Sobre o romance, questionada sobre a protagonista, a escritora realçou: "Ana Maria Machado é uma personagem criada, mas não é uma construção da minha secretária, é uma figura que caminha pelas ruas".
"A Ana Maria Machado é uma espécie de filha minha, como muitas jovens que existem por aí. Resulta do cruzamento de muitas filhas da minha geração e que podem ser esta figura", rematou.
A relação de Ana Maria Machado com o pai, um antigo jornalista, resulta numa metáfora construída pela autora em que, "apesar do desencontro de linguagem, há uma relação profunda pré-verbal, que é inexplicável, e o pai que aparece como uma figura decadente é salvo pelo amor da filha".
"Essa contradição de gerações existe entre nós e a relação com esse pai, que é uma pátria, foi uma relação que, para mim, foi muito intensa e forte", argumentou Lídia Jorge.
Quanto à escolha do ano de 2004, 30 anos depois da Revolução de Abril, Lídia Jorge disse à Lusa que esse foi o ano em que "aconteceu uma coisa que é a prova de que o mundo ia ter uma nova linguagem - o conluio que se criou para fazer a guerra do Iraque, que mostra à evidência que os interesses económicos internacionais são capazes de minar as lógicas dos países e o respeito pela própria lei internacional".
"Um momento dramático e muito claro de que íamos partir para uma nova época, e assim foi", rematou, para acrescentar em seguida: "Foi um momento muito feio em que os idealistas capitularam diante de um interesse que constituiu uma fatalidade extraordinária e `involucionou` o mundo".
Por outro lado, a autora disse que sentia "a necessidade de distância", dos dez anos entretanto passados, de "um terreno lido", de modo a que os seus "pressentimentos" se confirmassem
"Precisei de um território conhecido para pôr as figuras lá, e coincide com um tempo em que Portugal continuava adormecido no seu sonho de grandeza, nós não sonhávamos, nem por sombras, o que nos iria acontecer", acrescentou.
Por outro lado, "os filhos dessa geração eram mais novos, ainda não tinham 30 anos, e o olhar é de entusiasmo, um olhar que se cola à realidade que é ainda adolescente e eu gosto desse olhar. A utopia posta nos seus olhos é admissível e é natural".