Literatura portuguesa "é uma das grandes literaturas do mundo ocidental" - Perfecto Cuadrado
Madrid, 02 Dez (Lusa) - Perfecto E. Cuadrado declarou-se hoje "feliz e surpreendido" com a atribuição do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, considerando que a literatura portuguesa "é uma das grandes literaturas do mundo ocidental", disse à Lusa.
"A literatura portuguesa ainda hoje me cativa e surpreende", afirma, um facto que atribui, em particular, ao facto de se desenvolver num território onde há uma forte tradição oral.
"Literaturas de territórios onde se mantém viva a tradição oral ou onde essa literatura permanece muito ligada ao mundo da oralidade, são literaturas vivas e o caso da portuguesa ou da galega demonstra isso", sustentou.
Perfecto E. Cuadrado dedica o galardão ao poeta espanhol Ángel Campos Pámpano, que morreu em Novembro último.
"Tenho imensa pena de não o poder partilhar com esse grande amigo, Angel Campos Pámpano, esse grande homem que tanto lutou para superar o que historicamente tem separado Portugal e Espanha", disse à Lusa.
"Teria sido uma grande alegria poder partilhar com ele este prémio e saudá-lo por ter recebido o Prémio Eduardo Lourenço, que infelizmente lhe foi conferido postumamente", sublinhou.
Declarando-se surpreendido pela escolha - nem sequer sabia que fazia parte da lista de candidatos - o tradutor espanhol e professor na Universidade das Baleares, em Palma de Maiorca, quis também dedicar o galardão aos que procuraram "defender juntos as diferenças" entre Portugal e Espanha.
"Tenho que o dedicar a Angel como aos meus mestres e aos meus alunos de português e, por extensão, a todos os que têm lutado pelo lema de defender juntos as nossas diferenças", disse.
"Só a partir do reconhecimento dessas diferenças, da curiosidade em conhecer essas diferenças, se pode criar um futuro fraterno e melhor para todo", disse.
Conhecido pela sua obra de tradução de Fernando Pessoa e de outros escritores portugueses, Perfecto E Cuadrado disse ter começado a conhecer a língua e a cultura portuguesa no final dos anos 60 do século passado, na Universidade de Salamanca.
Notando que, depois de 1974, aumentou em Espanha a curiosidade sobre Portugal, Cuadrado admite que hoje se vive uma situação de normalidade, com intercâmbios culturais de todo o tipo a demonstrar "a evolução que ocorreu", sendo cada vez menos difícil apresentar escritores ou artistas portugueses ao público espanhol.
É quando se muda para a universidade das Ilhas Baleares, onde completa mestrado e doutoramento, que Cuadrado alarga amplamente o seu contacto com tudo o que é português e onde começa o seu percurso de divulgação em maior escala.
O leque de trabalhos que traduziu vão desde uma primeira conferência de Virgílio Ferreira, do início dos ano 70, a várias obras de poetas portuguesas e livros de Pessoa, o primeiro dos quais "O Livro do Desassossego".
Sobre os laços culturais entre Portugal e Espanha, Cuadrado não duvida das melhorias que continuam a ocorrer, com o espaço da literatura, das artes e cultura em geral - "sempre das minorias" - a conquistar um publico mais amplo.
"É verdade que a grande maioria dos espanhóis conhecem Portugal como turistas. Mas também é verdade que há um público espanhol, cada vez mais amplo, interessado em ir para além dos tópicos do fado e dos nomes conhecidos", disse.
Para esse público, explica, nomes como Pessoa, Saramago ou Lobo Antunes, nunca podem ser vistos como obstáculos à divulgação de outros artistas, mas antes "pedras no charco".
"Na minha experiência, de livrarias, de leitores, de faculdades, a pergunta é sempre: para além destes, que são reconhecidos, que outros escritores ou artistas há? Isto é importantíssimo. É uma pedra no charco que cria ondas de interesse", sublinhou.
Perfecto E. Cuadrado, 59 anos, natural de Zamora, é actualmente catedrático de Filologia Portuguesa e Galega na Universidade das Ilhas Baleares.
É o segundo galardoado com o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, atribuído anualmente por Portugal e Espanha e distinguido no valor de 75 mil euros.
ASP.
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