Livraria, um conceito que está a mudar em Portugal

Lisboa, 10 Dez (Lusa) - O conceito de livraria está a mudar em Portugal, com o predomínio das grandes cadeias e o desaparecimento das livrarias independentes, por imposição dos centros comerciais, argumentam livreiros contactados pela agência Lusa.


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Em vésperas da abertura da Byblos, considerada a maior do país, três livreiros portugueses dizem que o conceito de livraria está em mudança, desde que a cadeia francesa FNAC entrou em Portugal em 1998, mas têm ideias diferentes sobre o futuro destes espaços.

José Pinho, um dos sócios da livraria Ler Devagar, em Lisboa, é da opinião que a maior mudança ocorrida nas livrarias foi a deslocação das livrarias de rua para os centros comerciais, muitas delas ligadas a cadeias livreiras.

"Nos outros países continuam a existir livrarias independentes e a sobreviver, mas em Portugal as coisas são bastante diferentes", disse José Pinho, referindo que a sobrevivência passa pela ligação a editoras ou grandes grupos.

A Bertrand, por exemplo, tem actualmente 52 lojas, das quais apenas sete não estão localizadas em centros comerciais, e prevê abrir em 2008 mais cinco, todas elas em grandes superfícies, disse à Lusa a directora de marketing daquela cadeia livreira, Teresa Figueiredo.

"Os centros comerciais têm mais potencial de negócio, é onde há mais tráfego, embora haja zonas de rua interessantes", referiu a responsável, dizendo que a loja Bertrand do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, é a mais rentável.

A primeira FNAC que abriu em Portugal está localizada no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, e é a mais rentável em toda a cadeia mundial da FNAC.

Ofereceu um conceito que não existia até então: atendimento personalizado, espaços com algum conforto e vários produtos de cultura e entretenimento, entre livros, CD, computadores portáteis, telemóveis, material fotográfico e outros equipamentos técnicos.

No entanto, do volume total de vendas da loja FNAC em Portugal em 2006, apenas 21 por cento dizia respeito aos livros.

José Pinho, que pertence à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, estima que existam em Portugal perto de quatrocentas livrarias e a sua distribuição tem acompanhado o aparecimento de novos centros comerciais.

Com a introdução de livros nos hipermercados, ao lado de bens de primeira necessidade, e com a abertura de livrarias em grandes espaços comerciais, os hábitos dos portugueses também mudaram, argumentou, por seu turno o livreiro José Tavares, que acaba de abrir a livraria Círculo das Letras, em Lisboa.

Por isso, é preciso convencer os potenciais compradores e leitores, oferecendo um espaço "de afectos, encontros e debates", defendeu o responsável desta livraria generalista de rua, com pouco mais de 200 metros quadrados.

"Temos uma pequena galeria e um auditório e vamos apostar na realização de eventos. É preciso que as livrarias se adaptem às mudanças e se abram à comunidade ou terão muita dificuldade em resistir", disse.

Para cativar os potenciais compradores, são vários os argumentos usados pelas livrarias, como a inclusão de uma cafetaria, sofás ou uma agenda de eventos culturais.

A Bertrand, que está a celebrar 275 anos de existência, acaba de lançar uma iniciativa que oferece aos clientes um jantar com o seu escritor favorito.

"O livro em si não chega, porque há muita concorrência dentro da própria área da cultura e entretenimento, e é preciso reinventar o negócio e trazer alguma excitação", defendeu Teresa Figueiredo, da Bertrand.

Américo Areal, proprietário da livraria Byblos, acredita que em Portugal todas as livrarias têm o seu espaço e lugar, e que o livro está a ganhar mais importância.

"Cada vez mais há locais onde aparecem livros à venda, como as gasolineiras, os CTT, os aeroportos. Mas não basta ter dinheiro, é preciso ter muita dedicação e é aí que vamos querer fazer a diferença", avisou o fundador da Byblos.

Esta livraria, considerada a maior do país com 150 mil títulos disponíveis, inaugurará um novo conceito de loja já que será a única no mundo com um sistema de identificação e pesquisa de livros que recorre a uma tecnologia de radiofrequência.

Apesar da "concorrência feroz", como descreve o livreiro José Tavares, ainda há quem arrisque em abrir uma livraria que não tenha apenas os êxitos de vendas.

Foi o que fizeram Catarina e Ricardo, dois jovens com menos de trinta anos, que acabam de inaugurar a livraria Trama, em Lisboa, próximo do Rato, um espaço com 140 metros quadrados.

A livraria não está ligada a nenhuma editora, é generalista, mas mais direccionada para fundos de catálogo, e inclui uma pequena máquina de café e um espaço para as pessoas se sentarem.

"Vamos ter desde o Harry Potter ao Rimbaud", disse Catarina Barros à agência Lusa, referindo que a livraria era um sonho antigo agora concretizado.

"Nos últimos anos a tendência foi para a abertura de livrarias mega, mas há espaço para as mais pequenas", disse a livreira.

"Sabemos que não vamos vender muito, mas queremos que as pessoas saiam daqui felizes", sublinhou.

Afinal, seja a livraria grande ou pequena, "há alguém que não goste de ser bem tratado e de viver uma boa experiência?", pergunta Américo Areal.

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