Livro brasileiro "Português para falantes de árabe" apresentado na Faculdade de Letras
O livro "Português para falantes de árabe", um manual que já é usado na Síria para a aprendizagem da língua portuguesa, foi apresentado segunda-feira na Faculdade de Letras pelo Professor João Baptista Vargens.
O manual foi apresentado no âmbito da conferência "Árabes e muçulmanos no Brasil", organizada pelo Centro de História da Universidade de Lisboa e pelo Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos «David Lopes» com a presença dos Professores da Universidade de Lisboa, António Dias Farinha e Malaca Casteleiro.
Segundo a editora Almádena, "em Setembro de 2006, João Baptista Vargens foi designado pelo Ministério brasileiro da Educação para implantar o curso de Português na Universidade de Damasco, na Síria, como resultado de um programa de intercâmbio assinado com o governo brasileiro" e o método de aprendizagem utilizado passou a ser a publicação brasileira, da qual é co-autor.
Durante a conferência, o Professor explicou que a ideia do livro se foi concretizando quando leccionava árabe na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, conjuntamente com os alunos, elaborou a sua redacção.
O manual contém 26 lições que descrevem a cultura brasileira e as datas comemorativas do calendário nacional de uma forma essencialmente prática e que envolvem o aprendiz numa dinâmica baseada na conversação e na descoberta do vocabulário, "para aprender falando e não apenas do ponto de vista escrito", como destacou Malaca Casteleiro.
Baptista Vargens explicou que o livro tem como objectivo facilitar a aprendizagem do Português por árabes que o desejem por interesse ou por necessidade, como aconteceu com cerca de cem famílias palestinianas que o governo brasileiro decidiu acolher.
"Estavam acampados de forma desumana na Jordânia, expulsos do Iraque pela guerra, e o governo brasileiro recebeu-os. Este livro foi-lhes oferecido para se poderem adaptar à língua portuguesa", contou o Professor.
António Dias Farinha acrescentou que existem cerca de 200 milhões de falantes da língua portuguesa e sensivelmente o mesmo número de falantes da língua árabe, o que demonstra a "importância internacional de ambas as línguas".
Por sua vez, Malaca Casteleiro referiu que existem "três pólos importantes de interesse" pela aprendizagem do Português: "os falantes de espanhol, o Extremo-Oriente, com destaque para os chineses e japoneses, e o mundo árabe".
Para além desta publicação, a presença de escravos muçulmanos no Brasil e o lançamento do novo livro de Baptista Vargens, "Léxico português de origem árabe", dominaram a conferência.
O livro do Professor brasileiro teve origem na sua tese de doutoramento defendida na própria Universidade de Lisboa, há sete anos.
A primeira contribuição foi o estudo do arabismo resultante da presença de escravos muçulmanos no Brasil, conhecidos como malês, que lideraram diversas rebeliões no Estado da Baía, o que resultou num grande levantamento, em 1835.
Após a repressão da rebelião, muitos fugiram para outros estados da Região Nordeste do Brasil e também para a então capital Rio de Janeiro, onde mantiveram um comportamento distinto dos demais negros.
"Esses negros defendiam a criação de um reino islâmico na Baía, sendo que os líderes do movimento foram mortos, deportados para África e poucos conseguiram fugir", disse antes da conferência à agência Lusa.
A segunda contribuição do arabismo sobre a língua portuguesa no Brasil foi resultado da imigração de sírios e libaneses, iniciada em 1850, estimulada pelo imperador D. Pedro II, que visitou países do Médio Oriente.
Muitos deles, conhecidos como "turcos" por terem o passaporte do Império Otomano, dedicaram-se ao comércio e espalharam-se por todo o Brasil.
D. Pedro II, que tinha um professor de língua árabe, foi também o impulsionador da primeira tradução em língua portuguesa do Alcorão e da introdução de inúmeras obras árabes no Brasil.
O Instituto Luso-Árabe para a Cooperação aproveitou a presença em Portugal do Professor João Baptista Vargens para um almoço que reuniu o corpo diplomático árabe em Portugal e condecorou o brasileiro com a medalha da cooperação.
Representantes diplomáticos da Palestina, do Brasil e da Arábia Saudita fizeram, aliás, questão de estarem presentes na conferência.
Actualmente, estimativas oficiais indicam que há cerca de 12 milhões de descendentes de sírios e de libaneses, espalhados por várias regiões do Brasil.