Livro de Camilo Castelo Branco em edição revista e com texto fixado
Uma edição revista e com texto fixado do "Livro negro de padre Dinis" de Camilo Castelo Branco é lançada esta semana pela editora que publicou as primeiras obras do escritor, a Parceria A.M. Pereira.
O texto foi fixado por Sérgio Guimarães de Sousa, que defendeu uma tese de doutoramento sobre o escritor e comparou as diferentes edições saídas, algumas ainda durante a vida de Camilo.
A edição deste título insere-se num projecto da editora de relançar "alguns dos mais importantes e simbólicos títulos de Camilo" sob a coordenação da catedrática Maria Alzira Seixo, explicou à Lusa fonte editorial.
"No tempo de Camilo havia já várias edições não coincidentes por razões várias, até técnicas, pois as tipografias não eram como as de hoje", disse Alzira Seixo.
"Nesta edição - esclareceu - há tratamento privilegiado do texto, ideal para universitários, mas que coloca as coisas nos lugares".
No prefácio, da sua autoria, Alzira Seixo "faz a referência ao trabalho encetado e contextualiza a obra, que é de um tempo inicial de Camilo".
"Encontramos [no livro] paixões exacerbadas, aventuras rocambolescas e atropelo dos acontecimentos", referiu.
Segundo a investigadora, o plano de edição prevê a saída de dois títulos por ano de Camilo Castelo Branco, autor de uma obra extensa.
Alzira Seixo apontou três "razões essenciais" para a edição do "Livro negro de padre Dinis": "pertencer a um período literário menos conhecido do autor, ter um carácter folhetinesco, que não temos direito de rejeitar, e por este carácter se aproximar do gosto popular, para além do facto de a RTP1 transmitir uma telenovela baseada em obras suas".
"Através da edição de obras deste tipo procuramos captar o leitor menos literário, divulgando o Camilo que tem um português absolutamente impecável e foi um dos escritores mais lidos no seu tempo", declarou.
Referindo-se ao "Livro negro de Padre Dinis", Alzira Seixo salientou a "genialidade da pena de Camilo", nomeadamente num dos quadros, só comparável ao do envenenamento de madame Bovary, escrito por Flaubert.
A paisagem das teias romanescas de Camilo é quase sempre o Norte, nomeadamente o Douro Litoral, o Minho e as Beiras.
Em Vilarinho de Samardã (Vila Real de Trás-os-Montes) Camilo terá passado "os primeiros e únicos felizes anos" da sua mocidade, como escreveu.
"Anátema", "Amor de perdição", "Novelas do Minho", "Coração, Cabeça e Estômago", "Maria Moisés", "Doze casamentos felizes", são algumas das suas obras.
Camilo Castelo Branco suicidou-se em São Miguel de Ceide (Vila Nova de Famalicão) em 1890, desesperado por ter cegado e consequentemente não poder escrever.
O escritor morreu com graves dificuldades financeiras, tendo necessitado de leiloar a sua biblioteca em 1883, para sobreviver.
No total, até à sua morte a 01 de Junho de 1890, publicou mais de uma centena de títulos, além de artigos espalhados por diversos periódicos.
A obra de Camilo é grande parte fruto do seu percurso biográfico, marcado por grandes agitações, instabilidade, raptos, faltas de dinheiro e - uma constante em toda a sua obra - o conflito entre a "paixão" e a "razão".