Livro premiado de Valter Hugo Mãe "é um tsunami", diz José Saramago
O escritor José Saramago considerou hoje que o livro de Valter Hugo Mãe, hoje distinguido com o galardão literário da Fundação Círculo de Leitores, "é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força".
"Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li", disse o Nobel da Literatura sobre "o remorso de baltazar serapião", durante a cerimónia de anúncio e entrega do Prémio José Saramago 2007, em Lisboa, na presença do vencedor e dos membros do júri.
"Este livro é um tsunami no sentido total: linguístico, semântico e sintáctico. Deu-me a sensação de estar a assistir a uma espécie de parto da língua portuguesa", comentou o escritor sobre a obra que deu a valter hugo mãe a unanimidade do júri desta quinta edição do galardão.
José Saramago admitiu que até sorriu ao lê-lo: "Lembrou-me algumas ousadias a que me atrevi há vinte anos e que produziram escândalo. Temos outro escândalo, porque valter hugo mãe louvou a expressão escrita da palavra, e abandonou a parafernália sinalética, portanto, tudo o que é supérfluo", opinou, sobre a escrita do galardoado, caracterizada pela ausência de maiúsculas e de alguns sinais de pontuação, como as exclamações e interrogações.
No seu discurso improvisado, o Nobel da Literatura lançou a pergunta: "Quando saiu o livro?", alguém respondeu Março de 2006, e Saramago brincou: "E os sismógrafos não registaram nada?", provocando risos nos convidados presentes.
O escritor, patrono do prémio, considerou que "o remorso de baltazar serapião" constitui "uma revolução", e defende que "tem que ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura".
Por seu turno, valter hugo mãe, depois de agradecer as palavras do júri e de José Saramago, observou que o Nobel da Literatura o influenciou muito, nomeadamente quando lançou o livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1991), provocando nele uma "crise de fé".
"Fiz uma campanha para apoiar o livro e a liberdade de expressão quando surgiu toda a polémica. O meu primeiro livro ("o nosso reino", 2004 Temas e Debates) passa muito por essa realidade, pelo papel por vezes não benéfico da Igreja".
A obra hoje premiada, que obteve a unanimidade do júri, decorre durante a Idade Média e narra a história de Baltazar Serapião, um homem que casa com a mulher dos seus sonhos e que será forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e do remorso.
Nascido em 1971 em Angola, valter hugo mãe passou a infância em Paços de Ferreira, licenciou-se em Direito e fez uma pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Publicou até hoje nove livros de poesia, entre os quais, "três minutos antes da maré encher", "a cobrição das filhas", "útero", "o resto da minha alegria", "livro de maldições" e "pornografia erudita" e também antologias de poesia, nomeadamente de Adília Lopes e Manoel de Barros.
A residir actualmente em Vila do Conde, foi fundador e co-responsável pelas Quasi Edições até 2004 e dirige actualmente a nova editora Objecto Cardíaco, sediada naquela cidade.
Criado como homenagem a Saramago quando foi galardoado com o Nobel da Literatura, em 1998, o Prémio José Saramago/Fundação Círculo de Leitores é bienal e destina-se a autores até aos 35 anos com obra editada em língua portuguesa.
Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa e Gonçalo M. Tavares foram os vencedores nas edições anteriores do galardão, que ascendeu este ano a 25 mil euros.
Guilhermina Gomes, presidente da Fundação, presidiu também ao júri desta edição, ainda composto por Maria de Santa Cruz, Nazaré Gomes, Manuel Frias Martins, Pilar del Rio, Vasco Graça Moura, Nélida Pinon e Ana Paula Tavares.
Sobre a obra, o júri considerou "inquietante" a escrita de valter hugo mãe e "um livro de palavra polida que renova, na língua portuguesa, a surpresa de uma escrita sem datas, sem marcas do presente e no entanto nova e no exercício de todas as suas possibilidades e sentidos".