Livros, jornais e revistas raríssimas de Alfredo Ribeiro dos Santos em leilão no Porto

Uma das mais importantes bibliotecas particulares do Porto, com cerca de 3500 obras, pertencentes ao médico Alfredo Ribeiro dos Santos, vai a leilão a partir de quarta-feira, na Junta de Freguesia do Bonfim.

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"A biblioteca de Ribeiro dos Santos constitui um raro e precioso acervo de livros, jornais e revistas, altamente representativos do século XX português, obviamente orientado numa perspectiva republicana, socialista e laica", escreve Mário Soares, no prefácio do catálogo da colecção a que a Lusa teve hoje acesso.

Amigos desde os tempos do Movimento de Unidade Democrática (MUD), há mais de 60 anos, Mário Soares refere-se à colecção como "uma valiosíssima biblioteca rica em revistas e obras literárias e histórico-políticas".

No prefácio, Mário Soares considera também que "o destino das grandes bibliotecas é dispersarem-se, mais tarde ou mais cedo. Algumas vezes mesmo quando se integram em instituições públicas. O catálogo quando é cientificamente organizado é um marco que permanece, ajudando a perpetuar a memória do seu amoroso fundador".

Contactado pela Lusa, Alfredo Ribeiro dos Santos, disse que "a degradação da vista é o factor principal apontado para a dolorosa decisão de vender os seus livros".

Esta degradação, referiu, tem-se acentuado nos últimos tempos pelo que o médico só consegue ler com a ajuda de um dispositivo de aumento dos caracteres.

"Isto torna a leitura num exercício cada vez mais difícil e incómodo", frisa Ribeiro dos Santos.

A este facto junta-se um recente divórcio que tornou a falta de espaço em mais um factor ponderoso para a "difícil decisão que teve de tomar".

A opção pelo leilão prende-se também, segundo Ribeiro dos Santos, com o facto desta ser a melhor forma de obter o real valor de mercado das obras, já que os leilões são frequentados "pelas pessoas que mais apreciam e valorizam os livros".

Em leilão, que decorrerá até 11 de Outubro, na Junta do Bonfim, Porto, vão ser vendidas espécies bibliográficas de grande raridade, como as revistas "A Águia", "Presença", "Orpheu", "Contemporânea", "Exílio", "Byzancio", "Portugal Futurista", "SW Sudoeste", "Athenas", "Manifesto", "Hidra", "Poesia Experimental", "A Galera", "Centauro", "Dionysos" e "Távola Redonda", entre outras.

Herculano Ferreira, sócio-gerente da livraria Manuel Ferreira, organizadora do leilão, destacou também, da extensa lista de obras, "raríssimos" livros de Almada Negreiros, Miguel Torga, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, António Botto, Raul Brandão, Sofia de Mello Breyner, Júlio Dinis, Benardino Machado, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Agostinho da Silva, Oliveira Martins e Alexandre O`Neill.

A importância da colecção está a motivar grande interesse entre livreiros, alfarrabistas e coleccionadores portugueses, aguardando-se a participação neste leilão, que começa às 21:00 de quarta-feira, de centenas de especialistas e curiosos.

Os organizadores da iniciativa reconhecem que se trata de um "leilão de grande dimensão" pela raridade e estado de conservação das obras, mas escusam-se avaliar monetariamente a colecção.

A hipótese de doar o espólio bibliográfico a uma instituição pública chegou a ser ponderada, mas a ideia foi abandonada quando Alfredo Ribeiro dos Santos se apercebeu de que acervos idênticos iam parar a caves inacessíveis ao público.

Actualmente com 90 anos, Alfredo Ribeiro dos Santos já fez saber que não estará presente no leilão, preferindo despedir-se do seu acervo bibliográfico, hoje, quando todas as obras estiverem expostas no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim.

Segundo os responsáveis pela elaboração do catálogo, o conjunto de 3500 títulos retrata o percurso cultural e político do último século português, revelando um acervo único de publicações periódicas.

A publicação do catálogo, é considerada por Herculano Ribeiro como a "melhor maneira de fazer perdurar a colecção".

"Mesmo que fique dispersa por vários coleccionadores, ela poderá sempre ser consultada neste catálogo", frisou.

Alfredo Ribeiro dos Santos fez os seus estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, onde se tornou discípulo de Leonardo Coimbra. Em 1948, colaborou activamente na candidatura do general Norton de Matos à presidência da República.

Além da sua colaboração na revista "Portucale", Ribeiro dos Santos tem vindo a publicar vasta bibliografia da qual se destacam os seguintes estudos: "Perfil de Jaime Cortesão", "Professor Alberto Saavedra - um notável médico do Porto", "O professor Afonso Guimarães - um cientista de vanguarda", "A Renascença Portuguesa - um movimento cultural portuense", "Jaime Cortesão - um dos grandes de Portugal", "Perfil de Leonardo Coimbra" e "Para um novo perfil de Abel Salazar".

"Frequentador de tertúlias literário-políticas, colega, amigo e camarada do incansável conspirador anti-fascista do Porto, Veiga Pires, com o qual estagiou no Hospital de Santo António, foi ele que também o introduziu no Movimento de Unidade Antifascista (clandestino entre 1942-49) e no MUD", recorda Mário Soares.

"Desde então encontrei-o em todos os grandes momentos da oposição democrática", escreve o ex-presidente da República, destacando ainda que Alfredo Ribeiro dos Santos "com uma vida já longa e uma magnífica lucidez, deixou sempre, por onde passou, um rasto de simpatia, de humanidade, de aprumo pessoal e de respeito verdadeiramente invulgares".

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