"Loucura faz parte da vida e torna-a interessante" - Lygia F. Telles

A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, que hoje recebe no Porto o Prémio Camões 2005, disse ser "uma amante da loucura", um estado "que faz parte da vida e que a torna interessante".

Agência LUSA /

Com 82 anos, a ficcionista e romancista garantiu "não conceber o Mundo sem a loucura".

Por outro lado, a premiada sublinhou que "odeia" a frivolidade e a vulgaridade como rampas de lançamento para as mulheres encontrarem "um lugar ao sol".

Numa sessão de apresentação que decorreu esta manhã na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a escritora adiantou ser uma mulher de esquerda, apesar de apartidária, vivendo "comprometida com as desigualdades sociais" do seu país.

A loucura entra em cena na sua vida porque - afirmou - é um estado de alma que permite ao ser humano "transgredir a marcha planeada" e "impossibilita o escritor de segurar a rédea da personagem, que tem que ser livre".

"Descobri que as personagens são como os seres humanos:

adquirem vida própria e querem defender essa vida ferozmente", disse.

A escritora galardoada com o que é considerado como o maior prémio literário de língua portuguesa admitiu "sentir-se emocionada" ao falar a jovens sobre si, a sua obra e as ligações que sente ter com Portugal.

"O furacão que nos tomou durante a viagem [de avião até Portugal] causou turbulências em mim mesma", disse.

Perante a plateia do Salão Nobre da Faculdade de Letras do Porto, garantiu "estar ainda atingida por essas turbulências".

Sobre o papel do escritor na sociedade, Lygia Telles defendeu que a este se pede apenas que dê o testemunho do seu tempo.

Lembrando a sua obra "As meninas" - cujas três personagens principais são o reflexo da sociedade brasileira na década de 1970 - a escritora afirmou tentar "penetrar profundamente nas personagens" para conseguir testemunhar "com dignidade, força e competência" o mundo em que vive.

Para a escritora brasileira, autores de língua portuguesa como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Luís de Camões e, entre outros, Machado de Assis, "são grandes e mantêm a actualidade".

"No tempo que me resta de vida prefiro reler estes grandes autores", disse.

A escritora, autora de 17 livros, entre romances e contos, publicados não só no Brasil e em Portugal como em vários outros países, é formada em Direito e Educação Física, tendo-se dedicado muito tempo à prática da esgrima, desporto que recordou com saudade.

"Continuo com o meu coração sem defesas", disse, demonstrando emoção por receber esta tarde o Prémio Camões, um galardão que, garantiu, não a faz envaidecer.

Considerou, no entanto, ser para si da "maior importância", devido às ligações profundas que sente ter com Portugal.

A escritora falou de João Alvares Fagundes, um seu antepassado português que partiu de Viana do Castelo à descoberta das terras do Noroeste Atlântico.

Confessou que pede a protecção a este "tio" português cada vez que escreve um novo livro.

"Peço a bênção e que me proteja nesta travessia, que exige o sonho", frisou Lygia Fagundes Telles.

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