"Luanda, Lisboa, Paraíso", um romance sobre doença e miséria com um pouco de ternura
O novo romance de Djaimilia Pereira de Almeida é uma história de doença, pobreza e amizade vivida por um pai e um filho angolanos em Lisboa, uma viagem pela miséria humana, contada ao som de "Try a little tenderness".
"Luanda, Lisboa, Paraíso", editado pela Companhia das Letras, é o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, que se estreou em 2015 no panorama literário português com "Esse cabelo", um livro reflexivo, mistura de romance e ensaio, de base autobiográfica, e que, em entrevista à Lusa, conta como trabalhou este segundo romance, igualmente sobre a diáspora, mas em que deixou a narração na primeira pessoa para se centrar numa família angolana.
"Luanda, Lisboa, Paraíso" conta a história de Cartola de Sousa, parteiro num hospital em Luanda, e Aquiles, seu filho de 14 anos, nascido com um calcanhar defeituoso, que viajam para Lisboa, nos anos 1980, para que o rapaz possa ser submetido às operações e tratamentos médicos que resolveriam o seu problema no pé.
Para trás deixam Glória, mãe de Aquiles, doente e imobilizada na cama, entregue aos cuidados da filha, Justina, irmã de Aquiles.
O título do livro traça precisamente o percurso feito por pai e filho, nessa viagem que começou cheia de sonhos, esperança e ilusões, de uma Lisboa mágica que os receberia como portugueses, mas que acabou por ser uma viagem sem regresso, pelos caminhos que conduzem à miséria humana: de Luanda, viajam para Lisboa, onde vivem numa pensão durante os tratamentos ao pé de Aquiles, e, finalmente, acabam a viver no Paraíso, um bairro da lata na margem sul do Tejo.
Djaimilia Pereira de Almeida conta como é que as personagens da história entraram na sua vida: "Inicialmente apareceu Cartola, ainda em criança, a brincar com o seu pai à beira de um riacho. Interessou-me perceber quem era aquele menino e como tinha sido a sua vida. E então arranjei-lhe uma família".
A ideia para o enredo nasceu da "vontade de contar uma história inspirada numa das razões comuns da diáspora africana: a resolução de problemas médicos".
"Mas o livro talvez tenha nascido de uma coleção de bugigangas que colecionei ao longo de vários anos, passeando em feiras da ladra. As personagens tiveram origem nessa coleção aparentemente sem nexo e nasceram da minha indagação sobre a origem desses objetos sem dono e sem valor", conta Djaimilia.
As próprias personagens acabam assim, "sem dono e sem valor", discriminados, tratados como lixo humano, a trabalhar nas obras, pai e filho - o "preto coxo" -, sobrevivendo com fome, ao ritmo da doença, do acumular de dívidas e das cartas e telefonemas trocados com a família deixada em Luanda.
É, por isso, uma história triste e de decadência, mas contada com linguagem poética, um equilíbrio que Djaimilia Pereira de Almeida procura propositadamente.
"Há uma canção de que gosto, na versão de Otis Redding, em que se diz: `Try a little tenderness`. Para mim, este verso é de algum modo uma poética, na medida em que procuro de uma forma premeditada uma certa gentileza no ponto de vista, como forma de fuga ao cinismo".
Nesta história, como acontece muitas vezes na vida, o fio condutor é a doença, um tema que é caro à autora e que foi também a base de um pequeno livro que escreveu para a Coleção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A doença "é uma das grandes condicionantes da nossa relação com os outros e da nossa autoimagem. Nesse caso, escolhi-a, também, porque me interessou pensar sobre o ponto em que a falta de saúde oblitera a identidade tanto do cuidador como do paciente", explicou à Lusa.
Há uma altura em que Cartola assume que precisa que a mulher esteja doente, na cama, para ele se sentir pessoa, ou seja "a sua identidade passa a depender, a partir de certo ponto, da sua condição de cuidador, tanto da mulher, como do filho, pelo amor dos quais ele morre em vida".
"Almejar a uma segunda vida, em Portugal, depende de se reencontrar com a pessoa que é, para lá dessa condição, o que é muito difícil" e acaba por não acontecer.
Apesar de Aquiles ser o doente que passa grandes temporadas no hospital e fazer operações e tratamentos ao pé, é ele quem toma as rédeas da família em Lisboa, é obrigado a crescer e passa a tomar conta do pai que, contrariamente, parece tornar-se novamente criança.
"A partir de certo ponto, e [por causa do] desnorteamento do seu pai em Lisboa, Aquiles torna-se de alguma forma o pai do seu pai. Penso que aquilo que acontece entre eles é muito habitual. Já Cartola, espera renascer em Lisboa, sem se aperceber que nada aguardava por ele em Portugal", explica a autora à Lusa.
Depois de uma viagem amplamente sonhada por Cartola, que estudou Lisboa até à exaustão, julgava ter o mapa na cabeça e estava convicto do que iria encontrar e da vida que iria seguir, nada disso se passou e a sucessão de acontecimentos na sua vida e do filho foi conduzindo-os sempre para baixo, porque "nunca chega a estar nas mãos dele a possibilidade de alterar o curso da história".
Cartola e Aquiles não são olhados nem tratados como portugueses, mas com o tempo eles próprios deixam de se sentir angolanos e não ponderam voltar a Luanda, ficando numa espécie de limbo, quase sem identidade, uma situação que Djaimilia Pereira de Almeida reconhece que é vivida "por muitas pessoas em situações semelhantes".
Apenas dois momentos de luz atravessam a história, e a vida de Cartola e Aquiles, a chegada de Justina, que, durante a sua estada, põe as contas, a casa e a vida do pai e do irmão em ordem e harmonia, e a forte amizade dos dois com Pepe, um taberneiro português de origem galega.
"Pepe e Justina aliviam a vida de Cartola e Aquiles num momento de particular dificuldade", sendo que, no caso da relação com Pepe, por exemplo, "a amizade que estabelecem é transformadora para ambas as partes", já que "também Pepe precisava de alguém na vida e encontra em Cartola uma razão para viver".
Sobre este segundo romance, Djaimilia Pereira de Almeida disse à Lusa que "é um livro imaginado, escrito com mais tempo e com mais paciência", que "surgiu de uma forma mais serena".
"Literariamente, penso que isso se refletiu na forma como está escrito, uma vez que é menos elíptico e menos hermético em muitos momentos".